Escrita

Escrevo porque sinto dor

Escrevo porque meus versos são sangue

Escrevo porque a poesia é crua

Escrevo para não me entregar

Escrevo porque meu espírito precisa de força

Escrevo porque minha alma quer partir

Escrevo porque ainda quero ficar

Escrevo porque estou aprendendo

Escrevo porque viver é o que mais temo

Escrevo porque temo o que mais amo

Escrevo porque essas linhas são lágrimas

Escrevo porque escolhi seguir

Escrevo porque cansei de chorar

Escrevo porque não estou sozinha

Escrevo para me purificar

Escrevo porque estou doente

Escrevo para me curar

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Vidência

-Conte-nos o futuro! 

o que acontecerá? 

Perderemos sonhos 

protegendo a vida? 

Perdoaremos homicídios 

esquecendo suicídios? 

Curaremos doenças 

com tempo de rezar? 

Moraremos no deserto 

para nos salvar? 

 

-Protegeremos sonhos 

esquecendo a vida. 

Perdoaremos suicídios 

antes de homicídios. 

Rezaremos 

curando doenças. 

Moraremos no deserto, 

sem esquecer 

que a neve noturna 

é a água da manhã.

Juventude

Estamos no meio da tempestade

protegidos por um

guarda-chuva

furado

 

Amanhã já temos o mundo,

nos esqueçamos dele por enquanto!

 

A vida

é agora

e implora para ser sentida,

vivida

(sem moderação)

 

É hora de começar nossos destinos

sem preocupações, pois

já estamos perdidos entre os caminhos

sem saber quem somos

 

Sentimentos se descobrem

sem limites ou diferenciações

e a realidade a gente constrói para

no fim

viver

A vida, apenas

(sem complicações)

 

 

Monólogo com um retrato na parede

Não sou quem vocês sonharam

não me tornei o que queriam

minhas opiniões não são as suas

vivo num mundo que não é de vocês

 

Tentamos me encaixar várias vezes

nasci desencaixada

Sigo sentindo do meu jeito

amando à minha própria forma

 

Luto pelo que não acreditam

sonho pelo que não aceitam

choro, pois me rejeitam

Mas chega de me calar!

 

Meu manifesto não é ridículo

meus ideais não são utópicos

minha personalidade não é constrangedora

eu não sou vergonha!

 

E daí que eu me vista assim?

E daí que eu pense assim?

E daí que eu aparente assim?

E daí que eu seja assim?

 

Peço alteridade, não austeridade

não posso me esconder por fatos sociais

Não quiseram me dar asas?

Pois parem de tentar controlar

meu desajeitado voo solo

Ciclo

Um dia é só mais um dia

tempo se esvai

sem perceber

 

Fases mudam

sempre igual:

vivo em eterna lua cheia!

 

Mesmas músicas

olhares, locais

melancolia preenche

 

Estações seguem?

Trem parado, inverno

graveto segura avalanche

 

Baratas se alimentam

restos soterrados na neve

mais uma ex-perança

 

 

Carta de consolo 

Quem está aí,

atrás dessa porta, se lamentando?

Ah, é você!

A vida tem sido dura, não?

Mas tudo bem estar assim, sua fragilidade também é força

e ser forte é também saber aceitar ajuda

Não se preocupe com o que escorre de seu rosto neste momento

a pele morna vai te confortar em breve

    

Você pode até se zangar e não entender

mas mesmo que não queira, estarei ao seu lado para lutar

por e com você 

É difícil, eu sei

já vivi ofuscada por essa escuridão 

já estive prestes a desistir também 

Mas aprendi, nos momentos difíceis, que não estou sozinha 

E quero que saiba: você também não está!

   

Então chore, mesmo que seja pouco 

Guardar essas lágrimas só vai te empurrar para um precipício 

Chore, pois há dias mais cinzas que outros

são nesses que você precisa se livrar da sua dor

Só assim conseguirá entender:

a vida é feita do pranto necessário

para que se possa reaprender a sorrir a cada dia

e valorizar todas as cores

Cartinha desapaixonada

O que foi isso que

me fez só pensar

em te esquecer?

 

Acho que foi a falta da sua voz, mesmo ríspida,

ou sua ausência insuportável, que me partiu

Nem sei mais quanto chorei

 

E você foi desmoronando

todas minhas barreiras

Este poema foi só mais uma promessa que quebrei

 

Acho que me perdi apaixonada

em seu corpo, seu jeito

Nem sei para onde isso me levou…

Do paraíso ao inferno?

Já não me importa mais

 

Pois quando você veio atrás, eu tinha seguido em frente

agora fique com seu Chico Buarque,

entregue-o talvez para quem você já dedica Pablo Neruda

Saiba que as cartas e os astros

deixaram meu destino livre para o que eu escolher

Questionamentos

Quantas vezes uma alma pode ser rompida?

Com quantos toques não permitidos um corpo se parte?

São quantos os pedaços arrancados até um coração parar de chorar?

Em até quantos cortes uma pessoa pode ser divida?

Depois de quanto tempo a carne exposta começa a apodrecer?

Quantos lances determinam a carniça mais barata?

Quantas palavras são necessárias para destruir alguém?

Como salvar quem já se perdeu?

Você 

  

Você trouxe meu sorriso

e o levou embora

aprendi a sorrir sozinha

   

Você entrou sem precisar bater 

e saiu silencioso

sem eu perceber a movimentação    

   

Você me bagunçou

e foram apenas alguns dias

estou voltando a me organizar

   

Você me fez fechar minhas portas

e enferrujar as dobradiças 

agora controlo qualquer passagem

  

Você me trouxe a cólera 

e eu me perdi no vinho

assim meu coração amanheceu em paz

   

Você apareceu com palavras bonitas

e se ocupou demais para conversas

mas o silêncio só sabe destruir

   

Você já tinha desistido 

e eu também 

tentei deixar o gosto menos amargo

      

Você preferiu fugir 

e nada resolver

nos limitamos a ignorar o que aconteceu

     

Você me fez odiar Chico Buarque

e seus romantismos

me encontrei em novos artistas

   

Você restaurou minha confiança 

e levou um pouquinho 

estou cultivando o que restou 

  

Você veio no meio de uma tempestade

e me fez bem

só quis terminar sem rancores

   

Você foi um sonho bom

e acordei repentinamente

não tentei mais dormir

    

Você me inspirou poesias

e esta é a última que escrevo

não há mais espaço em mim para você