Não gostava de se expressar publicamente, mas gostava de escrever: as palavras que se recusavam a sair pela boca, escorriam e transbordavam pelas mãos. Fazia então um texto. Lia e relia, tentando analisar a qualidade. Mas como saber se estava bom? Deveria perguntar a alguém? Pânico: PRECISAVA perguntar a alguém! Mas quem?Chegava a passar até uma hora pensando no leitor/crítico perfeito: tinha que ser conhecido seu, mas só até certo ponto. Tinha que saber sobre a situação a qual o texto se referia, mas não de forma muito aprofundada. Tinha que entender o escritor, mas nem tanto. Tinha que ser sincero e, acima de tudo, discreto.

Escolhido o responsável pela primeira leitura, viria o veredito: se reprovado, o texto iria para a reforma; se aprovado, seria passado ao próximo leitor também cautelosamente selecionado. Se novamente aprovado, passaria aos próximos leitores (que por favor lessem sem a presença física do autor!). Algumas pessoas jamais entrariam em contato com determinados escritos. O longo processo era sempre o mesmo entre a produção de um texto e outro.

Um dia decidiu revolucionar consigo mesmo: colocaria um poema recém escrito na internet para todos verem! Sem pensar duas vezes, publicou. O coração parou por um instante e o sangue gelou de imediato. Passado um tempo, chegou a gostar do resultado do que fizera, mas logo se arrependeu ao pensar nas pessoas que liam seus textos sem passar pela criteriosa seleção. Tremendo, chegou a repetir o feito mais algumas vezes até passar pela pavorosa situação de alguém lhe falar pessoalmente sobre um texto seu publicado.

Superado o trauma, resolveu revolucionar novamente: montaria um blog para abrigar suas pequenas criações literárias (poderiam assim serem chamadas?). Desta forma, numa madrugada de segunda-feira, depois de fechar os olhos e dar um breve suspiro, fez sua primeira publicação. Fez a segunda. Na terceira, voltou o pânico: o que colocar? Tudo parecia oscilar entre o pessoal ou impessoal demais. As pessoas leriam? E se lessem, gostariam? Como interpretariam? Conseguiriam distinguir os textos que partiam da vida pessoal com os provindos puramente da imaginação? Tentariam desvendar os pensamentos e sentimentos do autor? Conseguiriam? Julgariam o autor por isso?

Na dúvida, ao invés de selecionar leitores aos textos, passou a selecionar textos aos leitores. Assim saberiam apenas o que o autor quisesse que soubessem. Aqueles escritos que não tinha certeza se queria ou não que fossem lidos, ou que não sabia se estava pronto para compartilhar, foram salvos nos rascunhos do blog. Na indecisão, aguardam entre um ato de coragem ou uma falha na capacidade de comunicação

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2 comentários sobre “Conto introvertido

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