Hakuna Matata

Bruna e Elisa eram duas universitárias perdidas na vida que foram juntas para Moçambique em um intercâmbio estudantil. Entusiasmadas com a ida à África, cantavam no avião “Waka Waka”, como se a música representasse o continente de alguma forma. No período de espera da conexão entre Johanesburgo e Maputo, decidiram que em nenhum momento deixariam claro para os outros que eram turistas. Concluíram a missão com sucesso enquanto tiravam uma foto com o elefante da Amarula e consumiam um pacote de batatinha Simba.

Chegaram ao destino final e foram carinhosamente recebidas por um aeroporto cor-de-rosa e sorrisos da publicidade da MCEL. A euforia das duas logo foi cortada ao caírem no golpe de um suposto funcionário do aeroporto, perderem 20 dólares e 10 reais e descobrirem que ninguém da universidade as esperava lá. Perdidas, assustadas e abandonadas, levaram cerca de uma hora até encontrar uma lista telefônica e uma alma bondosa que emprestasse o celular.

Fizeram uma ligação. Foram atendidas por uma voz confusa que se surpreendeu ao saber que seu número estava na lista. Fizeram uma segunda ligação. Na terceira, foram bem sucedidas e receberam a informação de que o motorista estava ocupado dirigindo para alguém mais importante que elas e foram instruídas a pegar um táxi e, com suas malas de trinta quilos cada, irem até a reitoria da universidade.

Já no táxi, pensaram que tudo havia se acertado. Até que uma policial mandou o carro encostar e o taxista começou a correr desesperado, observando pelo retrovisor se estava sendo seguido. Bruna empalideceu e ficou nervosa pensando no que aconteceria depois da fuga do motorista, que se justificava dizendo que a polícia o havia mandado encostar sem razão. Enquanto isso, Elisa, decidida a deixar os astros escolherem seu destino, ria da amiga e a mandava sorrir para uma foto. Passado o susto, chegaram vivas e inteiras na reitoria.

Em seguida, foram levadas ao carro oficial da universidade, afinal o motorista não estava mais ocupado com alguém importante, e seguiram rumo ao alojamento em que ficariam. Chegando no prédio, pegaram suas pesadas malas e foram em direção ao elevador, desativado fazia alguns anos.

Se deram conta de que, após enfrentar cerca de nove horas de viagem e ainda sem almoçar, teriam que subir as escadas com suas malas. Perguntaram até que andar iriam e receberam um sorriso como resposta. Começaram a subir. Subiram mais. O alojamento era masculino e dezenas de homens passavam por elas soltando cantadas toscas, mas incapazes de oferecer ajuda. E elas continuaram subindo. Quando chegaram no 12º e último andar, entraram num apartamento e foram recebidas por brasileiras que lhes entregavam canecas com água. Nem conseguiram contar quantas eram ou visualizar seus rostos, tamanhos o cansaço e sede que sentiam.

Entraram juntas no quarto que receberam, ajeitaram suas coisas nele e decidiram tomar banho. No meio do caminho, encontraram um mexicano aleatório que as informou que não havia sistema de aquecimento de água nos chuveiros e questionou a razão de seu número estar numa lista telefônica moçambicana. Elas não souberam responder.

Tomaram banho, dormiram e, às quatro da tarde, desceram para finalmente almoçar. Comeram chouriço com batata frita e coca-cola de garrafa de vidro. Subiram de volta e foram até a sacada do quarto. Olharam para a cidade, tão bagunçada, bela e cheia de ritmo. Suspiraram. Aqueles quatro meses em Moçambique prometiam!

 

Gladiadora 

A arena foi aberta!

     

Deixei meu corpo em sangue parar atrair

Vocês, leões

Venham e me experimentem

Deliciem-se com minha carne macia,

Sou carne-viva

Sirvam-se e divirtam-se; uma punhalada

E eis que a batalha é minha

         

Ela vive!, declara o imperador

O desejo

Ana e Mônica vinham cada uma de um estado diferente. Se conheceram quando entraram na universidade e por um acaso do destino foram morar na mesma república, mais especificamente no mesmo quarto. Apesar de estudarem em cursos diferentes, possuíam gostos parecidos e logo viraram grandes amigas. Iam ao shopping, ao parque, andavam de bicicleta, dançavam, faziam quase tudo juntas. Eram inseparáveis!

No entanto, numa manhã de quarta feira, chegou na república João, português, com longos cabelos e olhar sedutor. Cansado da viagem e com fome, arrumou suas coisas e foi ao quarto vizinho perguntar sobre algum lugar para comer. Foi Ana quem abriu a porta e, como já estava de saída para a faculdade, ofereceu companhia para levá-lo a uma padaria que tinha perto da república. Saiu do quarto devagar e fechou a porta com cuidado, pois Monica, que estudava de noite, ainda dormia. Ana e João conversaram bastante pelo caminho e, quando foram se despedir, ele deu uma piscadela e ela lançou um sorriso malicioso.

João voltou à república e dormiu um pouco. Levantou para pegar água na cozinha. No mesmo instante em que saia do quarto, Mônica também saía do dela. Se esbarraram no corredor e ela caiu no chão. Recém acordada, soltou um resmungo e levantou sozinha. João se desculpou e Mônica resmungou mais um pouco. Descabelada, ainda sem escovar os dentes e com um pouco de olheira, retornou ao quarto e voltou a dormir. Acordou novamente quando Ana chegou falando sobre o novo morador da república. Ao ouvir o que a amiga tinha a contar, Mônica sentiu um leve arrependimento pelo ocorrido durante a manhã.

Ana foi ao quarto de João perguntar se ele precisava de algo e os dois se puseram a conversar. De noite, enquanto Mônica ia para a faculdade, Ana e João saíram juntos em um encontro romântico. Voltaram de mãos dadas e se despediram com um beijo no rosto. Ficaram assim nos dias seguintes e Mônica começava a conversar um pouco mais com o provável futuro namorado da amiga.

Sábado foram os três a uma festa alternativa. Ana foi comprar uma cerveja enquanto João e Mônica dançavam. Quando voltou, João e Mônica se beijavam suavemente durante uma música qualquer. Ana virou a cerveja e, revoltada e bêbada, voltou para a república. Os dois nem perceberam. Naquela noite, Mônica dormiria no quarto de João.

No dia seguinte, Mônica foi a primeira a levantar e decidiu fazer uma caminhada pelo parque sozinha, antes que João e Ana acordassem. Quando voltou, encontrou os dois na sala, cada um em um canto, silenciosos, fingindo que assistiam a algum programa de canal de vendas. Ficaram os três em silêncio até que alguém levantou para fazer alguma coisa e os outros dois seguiram o gesto. O dia passou e nenhum dos três falou um com o outro. O silêncio se manteve pela noite.

Durante aquele mês, Ana teve vários ataques de ciúmes, Mônica se mudou para o quarto de João e as amigas passaram a trocar farpas constantemente. Se sentiam mal por isso, mas o intercambista havia virado item de orgulho e disputa entre elas. Enquanto Ana remoía o romance da amiga, Mônica se aproximava de João e a relação entre os dois se tornava mais íntima e romântica: João aparecia com pequenos mimos e palavras bonitas, enquanto Mônica se entregava sem pudor.

Passados dois meses entre festas, dúvidas e disputas, o intercâmbio de João chegou ao fim. Na noite anterior de sua partida, falou para Mônica que a amava e que mandaria mensagens todos os dias. Um pouco antes de entrar no taxi para o aeroporto, chamou Ana num canto e a beijou num manifesto de carinho, sem saber que Mônica, em silêncio e de coração partido, via tudo. Ana, perplexa, retribuiu o beijo.

Na semana que se seguiu, Ana via Mônica sofrer a cada dia que se passava sem notícias de João e começou a se sentir mal pela amiga. As duas carregavam o pesado fardo da amizade destruída por causa de um homem falso e vaidoso. Querendo conversar sobre tudo que ocorrera entre a chegada e a partida do português, foram a um bar barato que tinha na esquina. Sentadas e bêbadas, cada uma contou sua versão da história para a outra.

Não lembram como tudo aconteceu, mas entre a compaixão e a raiva que surgiam nas duas a cada detalhe novo de história, puxaram-se os cabelos enquanto suas línguas brigavam. De repente, toda a tensão entre as duas transformou-se num desejo reprimido e naquela noite dividiram a cama entre gritos de dor e prazer. Decidiram que nenhum outro homem colocaria a relação das duas em risco! Acordaram abraçadas e satisfeitas.