Àqueles que sentem-se como cacos

Não!

A janela aberta, a corda estendida,

o veneno no copo

Não combinam com você 

 

A vida já é breve

E há tanto ainda pela frente,

pedindo para acontecer!

   

No espelho você só consegue ver

dor e fracasso estampados em seu rosto

Não reconhece, no olhar,

a força que se constrói em sua essência 

 

Você pensa que por dentro

é apenas vidro estilhaçado 

Mas você é tão mais que

apenas cacos!

 

Dê à vida a chance de

tirar  o gosto amargo 

que ela deixou em você 

 

O sabor da morte é muito 

mais amargo, salgado 

nas aftas e feridas

sem água ou doce para ofertar

   

Não!

Essa voz que te manda desistir,

não é sua. Ignore-a!

É tempo, agora, de aprender a viver

Delírios de uma canção 

Três e quinze da manhã. Minhas mãos estão frias, sinto o suor no rosto e ouço as batidas aceleradas do meu coração. Há dias tenho o mesmo sonho, porém cada vez mais são acrescentados detalhes e encontro dificuldade em acordar. A música hoje está mais forte na minha cabeça.

Sozinha no escuro, penso no sonho. Lembro de estar perdida na claridade e de um pássaro me guiando. Juntos alçamos voo e o ar logo se transformou em uma cela. O pássaro pousou na minha frente e, de costas para mim, foi possuído por uma neblina e assumiu a forma de um homem vestido de negro. Quem era? Tentei ver seu rosto, mas era apenas um vulto. Ele indicou uma direção e vi instrumentos jogados. Com um gesto, eles começaram a tocar uma música gentil, que ao mesmo tempo atraía e assustava. A canção era a mesma de sonhos anteriores. Não a conheço, mas é familiar. O que é ela? O que significa? Por que me possui e torna tão difícil meu despertar? Distraída com a música, o homem pegou meu pulso e começou a me arrastar em direção a um breu. Me debati e, após alguns minutos de desespero, acordei. Ainda estou assustada, mas sinto que logo adormecerei.

Estou acordada e assim quero ficar. Mesmo ontem não voltando a sonhar, tenho receio de dormir. A música ainda está na minha cabeça. Ela nunca ficou tanto tempo! O dia de hoje foi estranho, tantos gritos… Minha mente está confusa, e não sei o que é realidade e o que é ilusão. Não tenho sono, mas meus olhos pesam e minha visão está embaçada.

Sinto um perfume suave e estou em um barco. Na minha frente um homem, silencioso, me observa. Anoitece e vejo alguém sentado no meu quarto. Sou eu? É possível a alma separar-se assim do corpo? Um vulto sussurra meu nome. Por que meu corpo se levanta? Sigo a voz sedutora… Não! Estou sonhando? As luzes me absorvem e me levam a um corredor escuro. Vejo o homem pegar meu pulso e me guiar. Seu rosto de caveira é indecifrável e nossos passos se misturam como em uma dança. Quero fugir, meu corpo não obedece. Grito, mas não escuto.

A música começa e pela primeira vez não está na minha cabeça, está em meus ouvidos. É como se saísse de mim. Ao som dos violinos, ela é mais bela e assustadora do que nunca. Em minha hipnose, o homem me conduz. Não sei o que é realidade e o que é ilusão. Minha mente sente o perigo e se afasta, mas o corpo é atraído. Tento voltar para dentro de mim, mas a mesma canção que me guia parece me repulsar. Se sei que estou em uma armadilha, por que sorrio? Por mais que eu tente, não consigo acordar. Talvez eu nem esteja dormindo, não me lembro disso. Só lembro de estar sentada em meu quarto. Sinto-me presa em algum lugar fora de mim.

Escuto minha voz. Estou cantando? Mas o que estou cantando? Minha voz está mudando. Emito agora um som diferente, que nunca ouvi antes. Minha voz machuca. Como posso sentir tanta dor se estou fora do meu corpo? O homem (será homem mesmo?) aponta para mim e meu riso malicioso me assusta. Me confundo com ele, já não sei de mim. Por mais que eu queira me aproximar, não consigo. Meu rosto tem sangue, minhas mãos estão vermelhas e tenho marcas roxas no pescoço. Mesmo assim meu sorriso permanece.

Dor novamente! Vejo mais sangue. Me sinto invadida, humilhada. A dor não para e é insuportável. Tenho desejo de vingança! Mas me vingar do que? Quero fugir! Se meu corpo está em paz (será que está mesmo em paz?), por que me sinto assim? Não aguento! Existe uma saída daqui? Vejo uma luz nova e entro nela. Devo esquecer a caveira e o corpo. Preciso ser rápida. Minha mente mistura terror e medo. Sinto lâminas me cortarem, minha visão está vermelha, a canção tenta me confortar. Fujo, corro, mas estou no mesmo lugar. Vejo ainda a caveira e meu corpo. Estão iguais, imóveis, sorrindo um para o outro. Não veem que ambos estão em carne viva? Será que só eu sinto a dor? Estou cansada como nunca, como se tivesse passado horas, impotente, lutando contra algo. Sinto minha pouca respiração ofegante, sei que estou tremendo, mas meu corpo é impassível. A música me tortura. Como não percebi antes que eu canto a melodia que me acompanha todas as noites? Ainda tento fugir, sei que algo me persegue, mas não consigo ver. Correntes invisíveis me prendem. Meu desespero cresce, minha mente está se debatendo. Quero gritar, minha voz não sai, minha boca está abafada. Meu coração está apertado, sinto mais lâminas. Não tenho agilidade, corro sem sair da mesma posição. Meu peito está quente e minhas mãos frias. O suor escorre, minha garganta está seca, minha cabeça dói. A música parou. Estou chorando? Meu corpo soluça e se esconde nos braços da caveira. Meu desespero e minha tristeza se misturam. Levanto o rosto, ele está deformado pelos cortes e meus cabelos foram arrancados. A caveira me segura firme, tremendo. Tento me agarrar a ela, mas ela está se desfazendo. Estou caída no chão e minhas mãos seguram apenas pó. Olho para mim e peço socorro. Meus gritos me assustam, parece que estou morrendo. Meu choro inconsolável é infinito, meus olhos vermelhos transmitem um horror que jamais senti.

Minha garganta e meu coração formam um só nó e sei que estou sendo atacada. Tenho apenas duas mãos, sou escrava de mim mesma. Estou sozinha, só posso me apoiar em mim, porém não me alcanço. Meus braços estão estendidos, eu tento me abraçar, mas uma força me afasta. Meu rosto, agora pálido, mostra um medo que jamais pensei sentir. Não sei se respiro, só sinto uma invasão contínua. Os gritos de um animal sendo abatido me atordoam. Com dificuldade me levanto, a sala de espelhos reflete minha loucura. A música volta, e me faz bater a cabeça no vidro que se espalha pelo chão. Já não tenho sangue e a dor me cega.

Uma voz chama meu nome e eu me olho, como se implorasse para segui-la. Faço o que peço e sou guiada para fora da sala, onde meu corpo permanece desfalecido. Estou em um labirinto, a escuridão é minha amiga. Um pássaro voa alucinado na minha frente. Seu canto estridente machuca. Ele me leva para locais em que vejo cadáveres perdidos e ouço lamentos vindos do silêncio. As correntes arrastadas traduzem o que sinto. Minhas veias queimam, meu peito arde.

O pássaro é novamente possuído por uma neblina, mas não assume nenhuma forma definida. A névoa curva-se suavemente sobre o animal em constante mudança e o fogo dança ao meu redor. Suas chamas lambem minha mente e, facínoras, arrancam as lembranças de quem eu sou.

Não sei meu nome, como é meu rosto? Quem é o homem que me observa e sorri para mim? Ele sussurra um nome estranho. Devo segui-lo? Nossos passos se misturam como uma dança em um corredor escuro. Ele me domina e me sinto segura. Estamos em uma sala, o cálice foi virado, o êxtase transborda em meu corpo. O homem pega meu pulso, acaricia minha pele e me mostra uma luz familiar. Ele começa a cantar, o mais belo som que já ouvi. Acompanho-o, minha voz é de morte. Ele me beija palavras obscenas, me conta detalhes de um sonho perdido. Fala de vultos, instrumentos mágicos, celas e canções. Ele diz como se fosse uma profecia, mas não compreendo o significado. Seus olhos sombrios suplicam por minha confiança. Lágrimas surgem em meu rosto, tenho medo de algo desconhecido. Seu abraço é quente e conforta. Levanto a cabeça para fitá-lo. Sua face agora é de caveira e seu corpo se desfaz. Impotente, o pó escorre de minhas mãos.

Ao meu redor há apenas espelhos. De onde surgiram? Meu reflexo é deformado, sou mesmo assim? Minha cabeça lateja, a ressaca é mais forte quando não se lembra da embriaguez. Vejo aquela mesma luz que me foi mostrada anteriormente. Ela parece querer se aproximar, estendo meus braços, mas ela não vem. Acometida pela loucura, grito desesperadamente. Uma força estranha empurra minha cabeça contra o vidro. Escuto uma voz, sei que é ele, mas não encontro a saída. Com todas as minhas forças, imploro para a luz encontrá-lo.

Acordei. Não sei por quanto tempo estive desmaiada. Os espelhos que me rodeavam formaram uma caixa que me aprisiona. Me debato, meu socos voltam-se contra mim, quebro os vidros, meu corpo é sangue, mas não sinto dor. Os cacos refletem uma névoa que se curva sobre algo sem forma. O fogo me consome e me torna imaterial.

Vago sozinha por um breu e me vejo sendo conduzida pelo homem (será homem mesmo?) em direção a uma sala. Meus gritos são em vão, sei que o seguirei para onde ele me levar. Deixo minha visão e corro na direção contrária. Entro em um quarto escuro. Nele, há uma cama e um corpo nu. Ao lado, a arma de um crime violento. O incêndio queima os resquícios do desespero. A luta pela sobrevivência está em cada parte. Um vulto cobre o corpo e canta. A música, ao mesmo tempo em que atrai, assusta. A alma segue a voz, o barco dos mortos aguarda a partida.

As mulheres

Era um dia de calor e Beatriz usava um vestido. Na inocência dos 13 anos, decidiu pegar transporte público para voltar para casa. O horário era de pico e o ônibus estava lotado. Sem conseguir se mexer direito, ia em pé. Sentiu algo encostar em sua saia. Não se importou, afinal o ônibus estava cheio e era fácil que esbarrões acontecessem. Sentiu algo tocando por baixo de sua saia. Estranhou, tentou olhar ao redor, mas chegou à conclusão de que era mais um esbarrão. Começou então a sentir dedos passando por baixo de sua calcinha e apalpando seu bumbum. Empalideceu. Assustada, tentava olhar ao redor para descobrir quem era, sem saber ao certo o que fazer. O alívio veio quando um desconhecido a puxou para o canto a fim de protegê-la. Rígido, disse-lhe que “mocinhas não deveriam andar por aí com roupas curtas”. Beatriz pediu desculpas, dizendo que apenas estava com calor naquele dia. Chegou em casa e caiu em prantos quando se olhou, nua, no espelho antes de entrar no banho. Não conseguia entender a razão de alguém querer lhe apalpar e nem o porquê de seu vestido ter sido o causador de tudo aquilo. Passou a ter vergonha do ocorrido e a guardar o segredo para si. Desenvolveu pânico de locais muito cheios e aposentou, por alguns anos, o uso de vestidos enquanto estivesse sozinha.

Natália estava feliz: havia passado em um processo seletivo para desenvolver uma ação social num projeto de grupo no interior de seus estado. Começou a adicionar seus colegas no facebook. Nessa, adicionou por acidente um desconhecido que, em alguns dias, começou a enviar-lhe mensagens. Deixou claro que sabia em que projeto ela estava atuando, em qual cidade e o local onde ela estava hospedada. Ela viu que o perfil era falso e que a única postagem era um pedido de pornografia pelo WhatsApp. Sentindo-se vulnerável e exposta, pediu para que o projeto e as pessoas evitassem marcá-la em publicações que indicassem o local em que ela estava durante o período de realização de seu trabalho. Recebeu risos como resposta ao seu exagero. Se arrependeu por ter se rebelado com tal situação e resolveu ficar quieta após ser elucidada sobre como o pobre homem provavelmente apenas queria falar com ela, sem segundas intenções. Afinal, como julgar alguém que ela nem conhecia e que somente tinha mandado algumas mensagens inocentes?

O sonho de Ana Carolina era cantar em musicais. Aos 14 anos, fazia aula de canto enquanto sua irmã mais nova, Raquel, estudava violão na mesma escola e horário. Recentemente, Raquel havia mudado de professor. O novo professor aparentava cerca de quarenta anos e era relativamente estranho em seu modo de agir: gostava de abordar Ana Carolina em locais isolados para cumprimentar e ter conversas superficiais. Ana começou a estranhar tais atitudes. Em determinado momento, o professor passou a beijar-lhe sugestivamente o rosto enquanto a cumprimentava. Com o tempo, ele passou a acrescentar carícias nojentas ao rosto de Ana, enquanto asquerosamente dizia o quanto ela era bonita. Ela sentia que tinha algo errado nisso, mas não falava com ninguém sobre e, quando falava, respondiam o que já estava em sua cabeça: “deve ser impressão sua”. Não abordava o assunto com ninguém da escola com medo de o professor fazer algo com sua irmã, que passava uma hora por semana com ele aprendendo a tocar violão. No ano seguinte, Isabela, uma amiga de Ana, passou a ter aulas de canto com tal professor. Logo foi percebendo as investidas dele e as amigas começaram a confidenciar o medo reprimido que alimentavam toda vez que o viam. O odiavam! Mas, bem-educadas como eram, não conseguiam ser rudes com o professor, que revertia a situação, fazendo-se de vítima por não ser correspondido pelas meninas. O abuso psicológico era insuportável! As duas saíram da escola de música, mas sem deixar de sofrer com as iniciativas pedófilas do professor, que conseguiu o telefone de Isabela e tentou convencê-la a aceitar que ele fosse em sua casa para aulas particulares. Também quando, por acidente encontrou Ana, que saia do colégio, na rua, e tentou pedir-lhe o telefone para combinar de sair um dia. As amigas desenvolveram o temor de encontrá-lo, chegando a atravessar a rua ao avistar alguém que pudesse ser ele. Anos mais tarde, Ana assimilaria toda a história, percebendo a gravidade dela e o quanto o professor aproveitou-se de sua insegurança e da dificuldade socialmente impostas às mulheres em dizer não. Sabe que suas cicatrizes não são físicas, mas elas doem e se manifestam até hoje.

Michele foi na casa de uma amiga que fazia aniversário. No ambiente informal e familiar, bebia, sabendo sempre seu limite, enquanto assistia aos homens jogando baralho. Acostumada a jogar desde a infância, entrou na partida seguinte. Teve a audácia de jogar e de se sentar igual a um homem. Foi julgada por seu comportamento masculino e vulgar. Ficou brava e até quis protestar em relação ao julgamento, tentando se justificar, mas depois achou melhor ficar quieta em relação ao assunto. Pensou que era melhor se recatar um pouco, afinal, um dos homens já estava se tornando invasivo com ela e as pessoas estavam muito distraídas com seu comportamento rebelde para perceber isso. Internamente, riu da situação ao pensar em como a cena do julgamento teria ficado muito melhor se ela estivesse fumando também.

Daniela andava na rua. Andava para ir para a escola, voltar para casa, pegar o ônibus, ir para o parque, ir para o shopping; apenas andava na rua. Desde que Daniela entrou na adolescência e começou a andar sozinha, passou a sentir olhares e a ouvir algumas palavras grosseiras. Falaram para ela que isso era normal e que era elogio, Daniela acreditou. Mas quando começou a se intimidar com algumas coisas e foi desabafar, escutou que sua roupa era muito curta, ou que seu uniforme de colégio de freira era provocante demais. Continuou andando. Um dia, um homem lhe perguntou as horas. Simpática, ela respondeu não saber. Atravessaram a rua e ele começou a querer conversar. Mudaram de quadra e ele a puxou para um canto escuro, a segurou à força e começou a beijar seu pescoço agressivamente. Daniela, num ímpeto de frieza, o empurrou e correu para onde tinha uma multidão. Entrou num táxi, tremendo e chorando. Quando contou para alguém sobre o ocorrido, perguntaram que roupa ela estava usando. Nos dias seguintes, Daniela continuou andando. E andando, sofreu vários outros assédios iguais ao que já estava acostumada. Independente de sua roupa e horário, sofria assédio. Uma vez, um homem a parou na rua para mostrar uma foto de seu pênis. Em outra, um homem pediu simplesmente para transar com ela. Se respondesse sem corresponder, sofria risco de agressão. Se ignorasse, era xingada. Aos olhos de alguns, é sempre ela que provoca com sua forma de agir, com suas calças, shorts, vestidos, blusas de mangas cumpridas ou curtas, com ou sem decote, seja de manhã, de tarde ou de noite. Talvez Daniela seja irresistível mesmo. Ou talvez seja tão feia, que deve agradecer aos homens que, em momentos de esforços altruístas, a elogiam só para tentar fazer com que sua auto estima aumente. Há também uma remota possibilidade de ela ser vítima desses homens, que não fazem ideia do quanto a incomodam e a intimidam.

Beatriz, Natália, Ana Carolina, Michele e Daniela estão separaras no espaço e tempo, mas se convergem em uma só. Como se houvesse algum mérito em ser mulher, dia 8 de março, as cinco receberam flores e parabéns. Naquele dia, todos ressaltaram a delicadeza e fragilidade feminina, a opressão ignorou o incêndio que tentou calar a voz manifestante. Por um dia, ser mulher pareceu a melhor coisa do mundo. Dia 8 de março, Beatriz, Natalia, Ana Carolina, Michele e Daniela ganharam flores e poemas daqueles que as julgaram, amenizaram seus temores e as consideraram loucas. E se retribuíram o gesto com um sorriso amarelo, era TPM.

Carta de lamentação 

 

Acordei chorando

em uma prisão de pensamentos

Sonhei que você veio

na minha solidão

 

Por que partiu?

Era como um sol!

Hoje choro por você,

pelos sonhos que se foram,

por sua voz perdida

que não me responde

 

Peço, por favor, que

não minta mais:

mesmo sem querer,

sei que me abandonou!