Era um dia de calor e Beatriz usava um vestido. Na inocência dos 13 anos, decidiu pegar transporte público para voltar para casa. O horário era de pico e o ônibus estava lotado. Sem conseguir se mexer direito, ia em pé. Sentiu algo encostar em sua saia. Não se importou, afinal o ônibus estava cheio e era fácil que esbarrões acontecessem. Sentiu algo tocando por baixo de sua saia. Estranhou, tentou olhar ao redor, mas chegou à conclusão de que era mais um esbarrão. Começou então a sentir dedos passando por baixo de sua calcinha e apalpando seu bumbum. Empalideceu. Assustada, tentava olhar ao redor para descobrir quem era, sem saber ao certo o que fazer. O alívio veio quando um desconhecido a puxou para o canto a fim de protegê-la. Rígido, disse-lhe que “mocinhas não deveriam andar por aí com roupas curtas”. Beatriz pediu desculpas, dizendo que apenas estava com calor naquele dia. Chegou em casa e caiu em prantos quando se olhou, nua, no espelho antes de entrar no banho. Não conseguia entender a razão de alguém querer lhe apalpar e nem o porquê de seu vestido ter sido o causador de tudo aquilo. Passou a ter vergonha do ocorrido e a guardar o segredo para si. Desenvolveu pânico de locais muito cheios e aposentou, por alguns anos, o uso de vestidos enquanto estivesse sozinha.

Natália estava feliz: havia passado em um processo seletivo para desenvolver uma ação social num projeto de grupo no interior de seus estado. Começou a adicionar seus colegas no facebook. Nessa, adicionou por acidente um desconhecido que, em alguns dias, começou a enviar-lhe mensagens. Deixou claro que sabia em que projeto ela estava atuando, em qual cidade e o local onde ela estava hospedada. Ela viu que o perfil era falso e que a única postagem era um pedido de pornografia pelo WhatsApp. Sentindo-se vulnerável e exposta, pediu para que o projeto e as pessoas evitassem marcá-la em publicações que indicassem o local em que ela estava durante o período de realização de seu trabalho. Recebeu risos como resposta ao seu exagero. Se arrependeu por ter se rebelado com tal situação e resolveu ficar quieta após ser elucidada sobre como o pobre homem provavelmente apenas queria falar com ela, sem segundas intenções. Afinal, como julgar alguém que ela nem conhecia e que somente tinha mandado algumas mensagens inocentes?

O sonho de Ana Carolina era cantar em musicais. Aos 14 anos, fazia aula de canto enquanto sua irmã mais nova, Raquel, estudava violão na mesma escola e horário. Recentemente, Raquel havia mudado de professor. O novo professor aparentava cerca de quarenta anos e era relativamente estranho em seu modo de agir: gostava de abordar Ana Carolina em locais isolados para cumprimentar e ter conversas superficiais. Ana começou a estranhar tais atitudes. Em determinado momento, o professor passou a beijar-lhe sugestivamente o rosto enquanto a cumprimentava. Com o tempo, ele passou a acrescentar carícias nojentas ao rosto de Ana, enquanto asquerosamente dizia o quanto ela era bonita. Ela sentia que tinha algo errado nisso, mas não falava com ninguém sobre e, quando falava, respondiam o que já estava em sua cabeça: “deve ser impressão sua”. Não abordava o assunto com ninguém da escola com medo de o professor fazer algo com sua irmã, que passava uma hora por semana com ele aprendendo a tocar violão. No ano seguinte, Isabela, uma amiga de Ana, passou a ter aulas de canto com tal professor. Logo foi percebendo as investidas dele e as amigas começaram a confidenciar o medo reprimido que alimentavam toda vez que o viam. O odiavam! Mas, bem-educadas como eram, não conseguiam ser rudes com o professor, que revertia a situação, fazendo-se de vítima por não ser correspondido pelas meninas. O abuso psicológico era insuportável! As duas saíram da escola de música, mas sem deixar de sofrer com as iniciativas pedófilas do professor, que conseguiu o telefone de Isabela e tentou convencê-la a aceitar que ele fosse em sua casa para aulas particulares. Também quando, por acidente encontrou Ana, que saia do colégio, na rua, e tentou pedir-lhe o telefone para combinar de sair um dia. As amigas desenvolveram o temor de encontrá-lo, chegando a atravessar a rua ao avistar alguém que pudesse ser ele. Anos mais tarde, Ana assimilaria toda a história, percebendo a gravidade dela e o quanto o professor aproveitou-se de sua insegurança e da dificuldade socialmente impostas às mulheres em dizer não. Sabe que suas cicatrizes não são físicas, mas elas doem e se manifestam até hoje.

Michele foi na casa de uma amiga que fazia aniversário. No ambiente informal e familiar, bebia, sabendo sempre seu limite, enquanto assistia aos homens jogando baralho. Acostumada a jogar desde a infância, entrou na partida seguinte. Teve a audácia de jogar e de se sentar igual a um homem. Foi julgada por seu comportamento masculino e vulgar. Ficou brava e até quis protestar em relação ao julgamento, tentando se justificar, mas depois achou melhor ficar quieta em relação ao assunto. Pensou que era melhor se recatar um pouco, afinal, um dos homens já estava se tornando invasivo com ela e as pessoas estavam muito distraídas com seu comportamento rebelde para perceber isso. Internamente, riu da situação ao pensar em como a cena do julgamento teria ficado muito melhor se ela estivesse fumando também.

Daniela andava na rua. Andava para ir para a escola, voltar para casa, pegar o ônibus, ir para o parque, ir para o shopping; apenas andava na rua. Desde que Daniela entrou na adolescência e começou a andar sozinha, passou a sentir olhares e a ouvir algumas palavras grosseiras. Falaram para ela que isso era normal e que era elogio, Daniela acreditou. Mas quando começou a se intimidar com algumas coisas e foi desabafar, escutou que sua roupa era muito curta, ou que seu uniforme de colégio de freira era provocante demais. Continuou andando. Um dia, um homem lhe perguntou as horas. Simpática, ela respondeu não saber. Atravessaram a rua e ele começou a querer conversar. Mudaram de quadra e ele a puxou para um canto escuro, a segurou à força e começou a beijar seu pescoço agressivamente. Daniela, num ímpeto de frieza, o empurrou e correu para onde tinha uma multidão. Entrou num táxi, tremendo e chorando. Quando contou para alguém sobre o ocorrido, perguntaram que roupa ela estava usando. Nos dias seguintes, Daniela continuou andando. E andando, sofreu vários outros assédios iguais ao que já estava acostumada. Independente de sua roupa e horário, sofria assédio. Uma vez, um homem a parou na rua para mostrar uma foto de seu pênis. Em outra, um homem pediu simplesmente para transar com ela. Se respondesse sem corresponder, sofria risco de agressão. Se ignorasse, era xingada. Aos olhos de alguns, é sempre ela que provoca com sua forma de agir, com suas calças, shorts, vestidos, blusas de mangas cumpridas ou curtas, com ou sem decote, seja de manhã, de tarde ou de noite. Talvez Daniela seja irresistível mesmo. Ou talvez seja tão feia, que deve agradecer aos homens que, em momentos de esforços altruístas, a elogiam só para tentar fazer com que sua auto estima aumente. Há também uma remota possibilidade de ela ser vítima desses homens, que não fazem ideia do quanto a incomodam e a intimidam.

Beatriz, Natália, Ana Carolina, Michele e Daniela estão separaras no espaço e tempo, mas se convergem em uma só. Como se houvesse algum mérito em ser mulher, dia 8 de março, as cinco receberam flores e parabéns. Naquele dia, todos ressaltaram a delicadeza e fragilidade feminina, a opressão ignorou o incêndio que tentou calar a voz manifestante. Por um dia, ser mulher pareceu a melhor coisa do mundo. Dia 8 de março, Beatriz, Natalia, Ana Carolina, Michele e Daniela ganharam flores e poemas daqueles que as julgaram, amenizaram seus temores e as consideraram loucas. E se retribuíram o gesto com um sorriso amarelo, era TPM.

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Um comentário sobre “As mulheres

  1. Difícil encontrar uma mulher que não seja Beatriz, Ana… São tantas é que lamento é que poderia ser diferente se a educação das meninas passasse pelo pressuposto de “meu corpo, minha regras”. Mas a maioria das mães nem mesmo abordam o tema é deixam as cegas suas meninas. A maioria se cala por vergonha, se sentem sujas e carregam para o resto da vida o drama. Bacio

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