Três e quinze da manhã. Minhas mãos estão frias, sinto o suor no rosto e ouço as batidas aceleradas do meu coração. Há dias tenho o mesmo sonho, porém cada vez mais são acrescentados detalhes e encontro dificuldade em acordar. A música hoje está mais forte na minha cabeça.

Sozinha no escuro, penso no sonho. Lembro de estar perdida na claridade e de um pássaro me guiando. Juntos alçamos voo e o ar logo se transformou em uma cela. O pássaro pousou na minha frente e, de costas para mim, foi possuído por uma neblina e assumiu a forma de um homem vestido de negro. Quem era? Tentei ver seu rosto, mas era apenas um vulto. Ele indicou uma direção e vi instrumentos jogados. Com um gesto, eles começaram a tocar uma música gentil, que ao mesmo tempo atraía e assustava. A canção era a mesma de sonhos anteriores. Não a conheço, mas é familiar. O que é ela? O que significa? Por que me possui e torna tão difícil meu despertar? Distraída com a música, o homem pegou meu pulso e começou a me arrastar em direção a um breu. Me debati e, após alguns minutos de desespero, acordei. Ainda estou assustada, mas sinto que logo adormecerei.

Estou acordada e assim quero ficar. Mesmo ontem não voltando a sonhar, tenho receio de dormir. A música ainda está na minha cabeça. Ela nunca ficou tanto tempo! O dia de hoje foi estranho, tantos gritos… Minha mente está confusa, e não sei o que é realidade e o que é ilusão. Não tenho sono, mas meus olhos pesam e minha visão está embaçada.

Sinto um perfume suave e estou em um barco. Na minha frente um homem, silencioso, me observa. Anoitece e vejo alguém sentado no meu quarto. Sou eu? É possível a alma separar-se assim do corpo? Um vulto sussurra meu nome. Por que meu corpo se levanta? Sigo a voz sedutora… Não! Estou sonhando? As luzes me absorvem e me levam a um corredor escuro. Vejo o homem pegar meu pulso e me guiar. Seu rosto de caveira é indecifrável e nossos passos se misturam como em uma dança. Quero fugir, meu corpo não obedece. Grito, mas não escuto.

A música começa e pela primeira vez não está na minha cabeça, está em meus ouvidos. É como se saísse de mim. Ao som dos violinos, ela é mais bela e assustadora do que nunca. Em minha hipnose, o homem me conduz. Não sei o que é realidade e o que é ilusão. Minha mente sente o perigo e se afasta, mas o corpo é atraído. Tento voltar para dentro de mim, mas a mesma canção que me guia parece me repulsar. Se sei que estou em uma armadilha, por que sorrio? Por mais que eu tente, não consigo acordar. Talvez eu nem esteja dormindo, não me lembro disso. Só lembro de estar sentada em meu quarto. Sinto-me presa em algum lugar fora de mim.

Escuto minha voz. Estou cantando? Mas o que estou cantando? Minha voz está mudando. Emito agora um som diferente, que nunca ouvi antes. Minha voz machuca. Como posso sentir tanta dor se estou fora do meu corpo? O homem (será homem mesmo?) aponta para mim e meu riso malicioso me assusta. Me confundo com ele, já não sei de mim. Por mais que eu queira me aproximar, não consigo. Meu rosto tem sangue, minhas mãos estão vermelhas e tenho marcas roxas no pescoço. Mesmo assim meu sorriso permanece.

Dor novamente! Vejo mais sangue. Me sinto invadida, humilhada. A dor não para e é insuportável. Tenho desejo de vingança! Mas me vingar do que? Quero fugir! Se meu corpo está em paz (será que está mesmo em paz?), por que me sinto assim? Não aguento! Existe uma saída daqui? Vejo uma luz nova e entro nela. Devo esquecer a caveira e o corpo. Preciso ser rápida. Minha mente mistura terror e medo. Sinto lâminas me cortarem, minha visão está vermelha, a canção tenta me confortar. Fujo, corro, mas estou no mesmo lugar. Vejo ainda a caveira e meu corpo. Estão iguais, imóveis, sorrindo um para o outro. Não veem que ambos estão em carne viva? Será que só eu sinto a dor? Estou cansada como nunca, como se tivesse passado horas, impotente, lutando contra algo. Sinto minha pouca respiração ofegante, sei que estou tremendo, mas meu corpo é impassível. A música me tortura. Como não percebi antes que eu canto a melodia que me acompanha todas as noites? Ainda tento fugir, sei que algo me persegue, mas não consigo ver. Correntes invisíveis me prendem. Meu desespero cresce, minha mente está se debatendo. Quero gritar, minha voz não sai, minha boca está abafada. Meu coração está apertado, sinto mais lâminas. Não tenho agilidade, corro sem sair da mesma posição. Meu peito está quente e minhas mãos frias. O suor escorre, minha garganta está seca, minha cabeça dói. A música parou. Estou chorando? Meu corpo soluça e se esconde nos braços da caveira. Meu desespero e minha tristeza se misturam. Levanto o rosto, ele está deformado pelos cortes e meus cabelos foram arrancados. A caveira me segura firme, tremendo. Tento me agarrar a ela, mas ela está se desfazendo. Estou caída no chão e minhas mãos seguram apenas pó. Olho para mim e peço socorro. Meus gritos me assustam, parece que estou morrendo. Meu choro inconsolável é infinito, meus olhos vermelhos transmitem um horror que jamais senti.

Minha garganta e meu coração formam um só nó e sei que estou sendo atacada. Tenho apenas duas mãos, sou escrava de mim mesma. Estou sozinha, só posso me apoiar em mim, porém não me alcanço. Meus braços estão estendidos, eu tento me abraçar, mas uma força me afasta. Meu rosto, agora pálido, mostra um medo que jamais pensei sentir. Não sei se respiro, só sinto uma invasão contínua. Os gritos de um animal sendo abatido me atordoam. Com dificuldade me levanto, a sala de espelhos reflete minha loucura. A música volta, e me faz bater a cabeça no vidro que se espalha pelo chão. Já não tenho sangue e a dor me cega.

Uma voz chama meu nome e eu me olho, como se implorasse para segui-la. Faço o que peço e sou guiada para fora da sala, onde meu corpo permanece desfalecido. Estou em um labirinto, a escuridão é minha amiga. Um pássaro voa alucinado na minha frente. Seu canto estridente machuca. Ele me leva para locais em que vejo cadáveres perdidos e ouço lamentos vindos do silêncio. As correntes arrastadas traduzem o que sinto. Minhas veias queimam, meu peito arde.

O pássaro é novamente possuído por uma neblina, mas não assume nenhuma forma definida. A névoa curva-se suavemente sobre o animal em constante mudança e o fogo dança ao meu redor. Suas chamas lambem minha mente e, facínoras, arrancam as lembranças de quem eu sou.

Não sei meu nome, como é meu rosto? Quem é o homem que me observa e sorri para mim? Ele sussurra um nome estranho. Devo segui-lo? Nossos passos se misturam como uma dança em um corredor escuro. Ele me domina e me sinto segura. Estamos em uma sala, o cálice foi virado, o êxtase transborda em meu corpo. O homem pega meu pulso, acaricia minha pele e me mostra uma luz familiar. Ele começa a cantar, o mais belo som que já ouvi. Acompanho-o, minha voz é de morte. Ele me beija palavras obscenas, me conta detalhes de um sonho perdido. Fala de vultos, instrumentos mágicos, celas e canções. Ele diz como se fosse uma profecia, mas não compreendo o significado. Seus olhos sombrios suplicam por minha confiança. Lágrimas surgem em meu rosto, tenho medo de algo desconhecido. Seu abraço é quente e conforta. Levanto a cabeça para fitá-lo. Sua face agora é de caveira e seu corpo se desfaz. Impotente, o pó escorre de minhas mãos.

Ao meu redor há apenas espelhos. De onde surgiram? Meu reflexo é deformado, sou mesmo assim? Minha cabeça lateja, a ressaca é mais forte quando não se lembra da embriaguez. Vejo aquela mesma luz que me foi mostrada anteriormente. Ela parece querer se aproximar, estendo meus braços, mas ela não vem. Acometida pela loucura, grito desesperadamente. Uma força estranha empurra minha cabeça contra o vidro. Escuto uma voz, sei que é ele, mas não encontro a saída. Com todas as minhas forças, imploro para a luz encontrá-lo.

Acordei. Não sei por quanto tempo estive desmaiada. Os espelhos que me rodeavam formaram uma caixa que me aprisiona. Me debato, meu socos voltam-se contra mim, quebro os vidros, meu corpo é sangue, mas não sinto dor. Os cacos refletem uma névoa que se curva sobre algo sem forma. O fogo me consome e me torna imaterial.

Vago sozinha por um breu e me vejo sendo conduzida pelo homem (será homem mesmo?) em direção a uma sala. Meus gritos são em vão, sei que o seguirei para onde ele me levar. Deixo minha visão e corro na direção contrária. Entro em um quarto escuro. Nele, há uma cama e um corpo nu. Ao lado, a arma de um crime violento. O incêndio queima os resquícios do desespero. A luta pela sobrevivência está em cada parte. Um vulto cobre o corpo e canta. A música, ao mesmo tempo em que atrai, assusta. A alma segue a voz, o barco dos mortos aguarda a partida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s