Carta deixada no canto de uma escrivaninha velha, debaixo de uma xícara de café vazia, num dia de chuva

Em que momento nos perdemos?

Seguimos em frente fingindo que nunca existiu o que não deixamos acontecer. Agora nos assombramos com a densa névoa que nos envolveu. Nos afastamos sabendo que jamais manteríamos a distância e que a aproximação seria inevitável, instável e cheia de dúvidas. E frágil! Quando foi que passamos a temer um ao outro e a desafiar nossa conexão?

Houve um período de conhecimento e esperança, cortado por meios diálogos e conversas monólogas. Mágoas inexplicadas minaram nosso caminho cheio de espinhos e agora temos que pensar com cautela neste terreno perigoso, pois os desvios não permitem nosso reencontro.

E eu vago, vendada, sem coragem para escolher um rumo, aguardando que seus ventos decidam se me guiarão ou não.

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Hoyo hoyo*

Passados alguns dias após a turbulenta chegada de Bruna e Elisa em Maputo, as intercambistas começavam a se acostumar com a nova realidade em que estavam inseridas: água fria, doze andares de escada e coca-cola barata.

No segundo dia em que estavam lá, foram a um supermercado sul-africano comprar o café da manhã que se resumiu em uma deliciosa bolacha de limão e em um suco (lá chamado de sumo). Em seguida, resolveram que iriam para a universidade regularizar suas situações como acadêmicas. Pegaram uma espécie de táxi que nada mais era do que um triciclo motorizado que andava loucamente entre os veículos nas ruas e os pedestres nas calçadas. Recebia o nome de txopela ou tuc-tuc. Elisa demoraria ainda algumas semanas para aprender. As duas amigas perguntaram o preço da corrida e, baseadas em um documentário que assistiram antes da viagem, negociaram o valor. Ficaram orgulhosas delas mesmas por terem feito igual à mulher do vídeo. Naquele momento, Bruna e Elisa sentiam-se verdadeiras moçambicanas!

Chegaram na universidade, mas não conseguiram resolver muita coisa naquele dia: levariam cerca de duas semanas entre descobrir as matérias ofertadas, encontrar as salas e efetivamente começarem as aulas. Fazer a matrícula? Só depois de muita briga e uma semana antes das aulas acabarem. Mas Bruna e Elisa não sabiam disso e mantinham a cândida esperança de que tudo seria facilmente resolvido em alguns dias.

Na hora de voltar para o alojamento, pegaram um chapa pela primeira vez. Chapa é um meio de transporte público em Moçambique que consiste em vans velhas e em sua maioria sem revisão ou manutenção, que percorrem desde pequenos trechos dentro das cidades até viagens mais longas, com muito mais gente do que deveria caber dentro dos veículos, mas que é bem barato e que costuma ter músicas boas e animadas tocando. Ficaram confusas na hora de encontrar o cobrador para pagar o transporte, mas ficou tudo bem; desceram na paragem.

Almoçaram no refeitório do alojamento e subiram para o apartamento. Inicialmente, tiveram a ideia de se organizarem para que no dia-a-dia pudessem subir e descer apenas uma vez os doze andares de escada, mas planejamento e organização nunca foram o forte de Bruna e Elisa que acabaram numa rotina de cerca de três subidas e descidas diárias. Diante do cansaço e sede que sentiam nesta maratona, adotaram algumas soluções que resolveram seus problemas: passaram a carregar garrafinhas d’água e a pensar em como suas pernas ficariam maravilhosas ao longo daqueles quatro meses. Descobriram também que, se de noite depois de uma festa voltassem bêbadas para o prédio, nem sentiriam as escadas. O que antes era apenas uma diversão, tornou-se estratégia para as duas amigas.

Quanto à falta de aquecimento da água no chuveiro, viram que tomar um banho gelado às duas horas da tarde depois de subir as escadas não era tão torturante. Já tomar banho de manhã ou de noite era mais complicado; quando possível, esquentavam a água num fogão formado por duas chapas de ferro que não fazia fogo e que era compartilhado por 8 pessoas que precisavam tomar banho e cozinhar, tarefa demorada em tal fogão. Algumas vezes tinham apenas duas alternativas: passar frio ou dormir sem tomar banho. Elisa resolvia seu dilema entre cantar músicas do filme Frozen e pensar em como seria até positivo adquirir mais anticorpos caso dormisse sem banho.

Dentre os desafios da nova realidade, lavar suas próprias roupas à mão era uma tarefa até agradável: era muito relaxante mexer na água enquanto conversavam com os outros estudantes do alojamento e tinham como vista o Oceano Índico. O único problema era a dor nas costas quando tinham que lavar toalhas, roupas de cama e coberta. Roupas lavadas, tinham que disputar espaço no varal com as vestimentas de cerca de 200 pessoas e se certificar de que a roupa estava bem fixa, pois a lavanderia era no terraço do prédio e era muito fácil observar algo voando de lá sem um rumo definido, livre, leve e solto no forte vento que gostava de visitar os estudantes e de vez em quando impedir que eles conseguissem abrir a porta da cozinha enquanto as coisas davam piruetas lá dentro.

Num momento inicial, o que mais dificultava a vida das duas intercambistas era o idioma: Bruna e Elisa simplesmente não conseguiam entender o português de lá, nem conseguiam se fazer entender. Entraram em uma crise existencial linguística! Conforme passava o tempo, iam se adaptando ao som daquele português tão sensual e maravilhoso lá falado e se perguntavam se pegariam um pouco da linda sonoridade moçambicana em suas falas.

A cada dia, as duas amigas aprendiam mais sobre Moçambique e mais ainda sobre elas mesmas. Enfrentavam a maior parte dos empecilhos com bom-humor e risos. Quando perceberam, já estavam profundamente apaixonadas pelo país, por suas cores, sua hospitalidade, sua população acolhedora e gentil, por tudo. Sabiam que, quando voltassem para o Brasil, teriam muito o que contar, desde histórias tragicômicas a histórias maravilhosas, além de assumirem a responsabilidade de expressar a gratidão ao país africano e de se verem obrigadas constantemente a explicar que, além de África não ser um grande país tribal homogêneo cheio de girafas, zebras e elefantes nas ruas, África não é Waka Waka. Nem Hakuna Matata.

*Hoyo hoyo significa bem vindo em changana, um dos idiomas falados em Moçambique.

Canto de guerra

 

Nunca disse

que seríamos

livres

Ou que teríamos

tempo de

voar

 

Na escuridão

O fogo nos salva

Com sua chama temida

quente

sólida

 

O que era distante

Tornou-se próximo

 

Cante comigo!

O que já foi a paz

 

E que deixemos de acreditar

          um instante

Que o sonho acabou