Despedida

Judite gostava de sentar na escada. Para ler, descansar, esperar algo ou alguém… Gostava de ficar lá, ocupando o terceiro ou quarto degrau, atrapalhando eventuais fluxos e observando cada um que passava. Considerava as escadas acolhedoras, confortáveis e distrativas.

Uma noite, na faculdade, após a aula, conversava na escada com seus amigos. Um assobio de vento passou pelo grupo e ela sentiu um leve arrepio; continuaram a conversar. Então ela escutou um barulho estranhamente familiar de chaves se batendo vindo do corredor de entrada do prédio. Curiosa, olhou em direção ao barulho. Empalideceu! Com olhos arregalados e voz trêmula, perguntou aos amigos, que notaram sua repentina mudança de estado:

– V-vocês veem aquele homem vindo em nossa direção?

Fizeram que sim, sem entender a reação de Judite, que em transe levantou e seguiu em direção à figura que havia parado de andar.

– Quem é você?- perguntou Judite, após um pesado suspiro e ainda em choque.

– Você sabe quem eu sou… Sim, sou eu mesmo. Isso não é um delírio.

– Mas como é possível? Já são dez anos desde que você…

– Morreu? Eu sei, mas você pediu e eu vim. Você… Está com medo?

– Não. – respondeu Judite, com ar de incredulidade – Você é meu pai! Como eu poderia?… Você é sólido? Posso te tocar?

– Sim.

Judite então pulou no pescoço de seu pai, abraçando-o com toda a força que tinha. Começou a chorar e a soluçar descontroladamente, enquanto sentia no terno dele um perfume que há tempos existia só nas lembranças. Seus amigos foram perguntar o que estava acontecendo, mas ela não conseguia verbalizar uma resposta e indicou, através de gestos, que estava bem.

Chamou seu pai para sentar em um banco do lado de fora e, como se tivesse voltado a ser criança, se aninhou em seu colo e voltou a chorar enquanto ele a confortava e tentava acalmá-la. Chorou o que estava acumulado fazia já dez anos e, quando acabou, Judite começou a sorrir enquanto se enchia de serenidade.

– Quanto tempo você tem aqui? – perguntou delicadamente.

– Alguns minutos, apenas. Minha transição foi brusca e antecipada, vim aqui encerrar o que deixei em aberto.

– E com a mamãe, você já falou? Preciso te levar até ela! E com a Laura?

– Não se preocupe, já falei com ela. Quanto à sua irmã, não posso visitá-la; por causa do ceticismo dela, só lhe trarei dor e não quero fazer isso. Agora, feche os olhos.

Judite obedeceu. Quando abriu os olhos, estavam em algum lugar imaterial e cercado de energias. Antes que ela pudesse expressar alguma coisa, seu pai começou a falar:

– Quero que saiba que está tudo bem. Passei estes dez anos me curando de meus monstros e sei que você sentiu parte de minha tortura. Agora quero que você sinta também como é uma alma curada. Cometi muitos erros e você não deveria ter sofrido por eles. Vou embora agora, finalmente descansar em paz e não há mais motivos para sofrer, pois está tudo bem. Antes de partir, vou te deixar um último presente.

E a abraçou. E ela o abraçou de volta. E se abraçaram tão forte, mas tão forte, que ele começou a se desfazer em luz e energia. E, de repente, uma parte quente e reconfortante desta energia foi absorvida pelo coração de Judite que, quando se deu conta, estava em seu quarto, deitada em sua cama. Uma lágrima morna e carinhosa escorreu em seu rosto. Dormiu, sentindo a energia curativa dentro de si: estava tudo bem afinal!

Anúncios