A pior parte de trabalhar fora, pensava Joana, não era nem a de ter que usar roupas sociais e ter que interagir com os colegas, mas era a de ter que ficar longe daquilo que mais amava: o blues. Até queria escutar algo durante o trabalho, mas como parte do que a sociedade convencionou como regras da boa convivência, não podia ouvir suas músicas alto. Fones de ouvido seriam uma opção, se não fossem tão mal vistos pela chefia, se não tivessem sido terminantemente proibidos por seu otorrino e se não cortassem tanto assim a emoção do ritmo. Antissocial como era, a única amizade que conservava no trabalho era a cafeteira elétrica, responsável por manter o pouco de sanidade mental que era possível ter naquele ambiente sem música.

Mas um dia, tragédia: a cafeteira quebrou! O colapso veio quando os funcionários começaram a levar café pronto em garrafas térmicas. A socialização inevitável para pegar o café não foi tão ruim quanto o maior sofrimento que Joana havia presenciado na empresa até então: o café, feito e trazido por aquela gente, pobre café, havia sido destituído de qualquer personalidade, de tão aguado e açucarado, coitado… Joana até tinha sua própria cafeteira em casa, mas jamais arriscaria a integridade de sua querida posse levando-a àquelas pessoas tão barulhentas, atrapalhadas e cruéis.

Respirou fundo, tomou uma decisão e foi falar com sua chefe. Expôs o fato de sempre ter sido boa funcionária e de que gostaria muito de trabalhar em sua própria casa. Devido seu histórico profissional, ganhou um mês de experiência para depois obter uma resposta definitiva. Joana comemorou a chance com seu pijama favorito, fumando um cigarro e bebendo café, amargo, denso, preto e intenso, como deve ser.

Durante aquele mês, só saiu de casa nos dias em que Antônia, sua faxineira trabalhava. Mesmo assim, Joana ia no máximo ao mercado. De pijama mesmo, pois era a melhor roupa possível para ir a qualquer lugar. Conciliava o trabalho com seus discos de blues, no último volume. Só abaixava o som quando dava o horário da lei do silêncio. Quando se cansava de trabalhar ou não conseguia prosseguir com o que estava fazendo, pausava tudo para dançar um pouco, pegar a guitarra, que por muito tempo havia ficado encostada, e praticar o ritmo. Isso refrescava sua mente e a tornava mais produtiva, além de começar a trazer avanços significativos para ela como guitarrista. Chegado o fim do mês, sua melhoria em termos de produtividade e qualidade no trabalho foram notáveis e a tão aguardada resposta afirmativa foi dada. Ela nunca mais precisaria trabalhar ao redor daquelas pessoas!

O tempo foi passando e ela ficava cada vez mais imersa em sua paixão. Não havia um minuto em que ela ficava sem música, não queria saber mais de nada, nem de ninguém. Queria apenas ficar a sós em seu mundo blues. Terminava seu trabalho o mais rápido possível para voltar toda sua atenção à música. Escutou e estudou tanto blues neste período, que começou a compor. Foi fatal: tirou férias e, se antes já não tirava mais seu pijama nem penteava o cabelo, agora mal se alimentava, só bebia café e fumava e já não saía por nada, nem mesmo nos dias que Antônia aparecia. “É louca, mas paga bem e até que é gente boa”, pensava a moça quando ia para lá. “E toca uma música legal”, completava.

Joana já havia perdido qualquer noção de barulho e todos que passavam na rua conseguiam ouvir o som que saía de sua casa, a qualquer hora do dia. A misteriosa figura que tocava blues diariamente e nunca aparecia em público, despertava a curiosidade das pessoas. Antônia comentava o fato com Joana, que nem prestava atenção. Preocupada, às vezes a moça perguntava se ela tinha algum amigo. “B. B. King, Muddy Waters e Helen Humes são alguns deles”, era a resposta padrão. Joana também lhe confidenciou certa vez que mantinha uma paixão quase secreta por um tal de John Lee Hooker.

Um dia, algo estranho aconteceu: tocaram a campainha de Joana. Ela se assustou com o fato inusitado, nem se lembrava mais que existia aquele som. Era um homem, dono do café que, para a surpresa dela, abrira já havia algum tempo ao lado de sua casa. Ele, fã incondicional de blues, confessou que não conseguia mais se conter e que precisava que ela tocasse em seu café todas as noites possíveis. Ofereceu-lhe emprego fixo, com carteira assinada e qualquer coisa que ela pedisse, tamanho seu desespero para tê-la tocando em seu café.

Joana ponderou e fez poucas exigências: pediu que pudesse beber quanto café quisesse e que fosse dado a este o devido respeito merecido. Pediu que pudesse trabalhar de pijamas e sem exigências quanto a maquiagem e cabelo e, o mais importante, pediu que tocasse sempre sozinha, num canto mais afastado das mesas e que não fosse obrigada a interagir com o público. Para ela era importante manter sua individualidade, coisa de artista, sabe? Propostas aceitas, contrato fechado. Foi até a empresa pedir demissão de seu antigo cargo. Seu aspecto físico assustou um pouco os funcionários, acostumados até então com roupas formais e cabelos reprimidos. “Até nunca mais”, pensava, entoando mais um pouco de blues em sua cabeça.

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