Manu e a bicicleta

Manu estava em fase de experiência de seu primeiro emprego. Andando, era meia hora de caminhada de sua casa até o trabalho. Era uma caminhada tranquila, com exceção do calor típico de mais de 30°C que fazia em sua cidade quase o ano inteiro. No primeiro dia de caminhada após o almoço, Manu passou mal. Nos outros dias, continuou passando mal.

Como não tinha habilitação e táxi era inviável, pensou em três alternativas: ônibus, patins ou uma bicicleta. Manu odiava andar de bicicleta: sempre preferiu andar de patins na infância e na adolescência. Por causa de problemas no joelho, também tinha recomendação médica de evitar exercícios tais como escadas e bicicletas. Só que patins não parecia ser uma boa alternativa, considerando a falta de calçadas e a quantidade exagerada de buracos que existiam nas ruas de sua cidade. Mas o sistema de transporte público lá também não era muito eficiente e os horários dos ônibus não atendiam suas necessidades. Manu decidiu então optar pela bicicleta.

Como já tinha começado a bater ponto na empresa, decidiu comprar a bicicleta contando com o salário que receberia no mês seguinte. Não resistiu e escolheu uma rosa, com cestinha. Pouco feliz com a compra, fez sua estreia como ciclista pedalando até um banco. De joelheira e evitando trajetos mais arriscados, sobreviveu à experiência! Dois dias depois, foi chamada no RH da empresa.

– Sentimos muito, a sede decidiu que não contrataria ninguém este ano. Culpa da crise, entende?

Manu, na chuva, pegou sua bicicleta nova e foi para casa. No caminho, parou para depositar o cheque com o valor equivalente aos dias em que havia batido ponto; a quantia pagava meia bicicleta. Por sorte, a outra metade pôde ser suprida com o pagamento de um serviço de panfletagem feito durante um fim de semana. Como também estava de TPM naquele dia, parou numa loja de doce para comprar chocolates e passou o resto do dia chorando por qualquer razão que aparecesse e comendo em seu apartamento.

Superado o momento, começou a se adaptar à bicicleta e a utiliza-la como meio de transporte no dia a dia para a faculdade e para onde mais precisasse ir. Um dia, pela manhã, foi tirar seu celular do carregador e notou, surpresa, que a bateria do aparelho estava inchada. Sabendo dos perigos de uma bateria inchada e tendo consciência de que seu celular barato comprado numa loja de esquina não tinha uma garantia segura, decidiu que iria comprar um novo aparelho num local mais confiável e em que fosse mais fácil de ser socorrida numa situação dessas. Mas antes de ir para a loja, passaria no hospital para pegar o resultado de alguns exames. Era início de tarde, foi de bicicleta e Manu colocou seu transporte junto ao portão do hospital e trancou o cadeado. Na saída, sua chave quebrou dentro dele. Não teve dúvidas: chamou sua amiga, pegaram sua caixa de ferramentas cor-de-rosa e foram as duas, uma e meia da tarde, no centro da cidade, arrombar o tal cadeado da bicicleta.

Passaram uns 30 minutos martelando o cadeado enquanto recebiam alguns olhares desconfiados de quem passava. Resolveram pedir para o segurança, que cuidava da entrada do hospital, alguma ferramenta que as pudesse ajudar a cortar o cadeado. Manu mostrou o pedaço de chave que havia restado em seu chaveiro e tentou explicar a situação da forma mais normal possível. Como o segurança chegou à conclusão de que as duas não tinham lá talento para serem ladras e provavelmente estavam dizendo a verdade, arranjou um alicate de corte e as amigas puderam seguir com a programação normal do dia.

Um tempo passou e Manu comprou um cadeado novo, com uma chave mais resistente. No mesmo dia em que comprou, foi para a faculdade. Como estava chovendo, voltou de carona e colocou no chaveiro as duas chaves que vinham com o cadeado. Chegou em casa, as chaves do cadeado haviam sumido. Incrédula, Manu passou uma semana procurando pelas chaves enquanto sua bicicleta repousava na faculdade. Quando cansou de procurar, pegou uma lima emprestada, se juntou com três colegas e o guarda da faculdade e arrombaram o segundo cadeado da bicicleta. A recém-formada gangue comemorou o pequeno crime e Manu recuperou seu meio de transporte. Misteriosamente e como a vida gosta de um pouco de humor, no dia seguinte as chaves apareceram em sua caixa de correio.

O terceiro cadeado comprado por Manu, já foi planejado para ter a chave forte e, em última instância, ser fácil de arrombar. Assim que comprou o cadeado, Manu chegou em casa e colocou uma das chaves em seu esconderijo secreto onde guardava seus bens mais preciosos. Foi sua salvação, pois a chave que estava em seu chaveiro resolveu, num lindo dia, desaparecer sem maiores explicações. O caso nunca seria resolvido, mas a chave reserva continuou ali, reluzente e bela no chaveiro de Manu.

Passada a fase de problemas com chaves e cadeados, Manu e sua bicicleta passaram por vários momentos juntas. Em um deles, sofreram um assalto, o primeiro de ambas, a mão armada e com direito a serem xingadas pelo assaltante. Em outros, se perderam, tomaram chuva e capotaram lindamente na calçada. Manu até que está inteira, mas a bicicleta, coitada, já perdeu freio, perdeu pedal e está toda arranhada: constantemente precisa ser levada ao conserto. Mas Manu já aprendeu a gostar dela e se apegou ao objeto. Quanto aos cadeados arrombados, estes foram guardados como forma de recordação. Quem sabe não sejam transformados em quadros e não façam parte de uma decoração um tanto quanto peculiar?

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Carta de libertação

 

Desisti de minhas raízes:

escolhi ser livre

e a liberdade me prendeu

 

Que eu sopre o vento que me guia

¡Pertenço ao mundo, a mais ninguém!

 

É a minha vez de dizer quem EU sou

de quebrar minhas próprias correntes

sem aceitar novas imposições

 

Agora que me perdi, não quero salvação

Pagliacci (Vesti la giubba)

Ria palhaço,

o mundo não quer ouvir

seus lamentos

são a comédia que não

deixam o pano descer

Recitar! Mentre preso dal delirio

Ria palhaço,

o mundo não quer sofrer

uma desilusão

seria a maquiagem derretida

por lágrimas sob a luz

La gente paga e rider vuole qua

 

Ria palhaço,

o mundo não quer saber

se você é humano

deixe o circo te prender ou

o palco não será mais seu

Bah, sei tu forse un uom?

Ria palhaço,

o mundo não quer entender

seu coração partido

é uma piada

para quem define amor

Tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto

 

Ria palhaço,

o mundo não quer conhecer

sua dor

aliena o público

aplaude a cena final

Ridi del duol, che t’avvelena il cor!

Seis da manhã

São seis da manhã
pego meu cachorro e vou pra praça
São seis da manhã
o pão é fresco e o café quente
São seis da manhã
as famílias são reais
São seis da manhã
o orvalho é um perfume suave
São seis da manhã
os sonhos ainda sonham
São seis da manhã
não há disfarces
São seis da manhã
agora somos felizes
São seis da manhã
a realidade não existe
São seis da manhã
tudo é leve
São seis da manhã
e não sei quem sou

Baile

 

Me segure e me encante

 

Dance comigo (!)

uma vida

De amor e de loucura

 

E que seja ao som da manhã!

Seja esta música quente, tão (e)terna

que nos faça manter a harmonia

perdendo os compassos

 

Que seja tão suave e bela,

que faça o banqueiro chorar

O mundo girar em um só tom

 

Os jornais divulgarem

nossa esperança

deste momento durar

Mais uma canção!

Remorso póstumo 2

 

A vida foi sugada de

cada parte do meu corpo

soterrado pela terra podre

 

Está tudo tão escuro!

 

Os sentimentos fogem de mim

A crueza da existência

alimenta minha alma

 

Parece tão tarde!

 

A morte curou a cegueira

tenho consciência de tudo

 

O que foi que eu fiz?

 

Quebrei tudo ao meu redor

e me transformei em cacos

Meus rastros são dejetos

 

Dói tanto!

 

Colhi dos meus frutos amargos

o sabor da inimizade

a ausência de uma salvação

Terei perdão?

 

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Poema feito para a revista “Scenarium Plural”, disponível aqui