Carta para meu professor

Caro professor,

Não pedirei mais licença:

minha vez de falar!

Seu orgulho e vaidade vão te permitir me ouvir?

 

Minha depressão

nunca foi abertura para se aproximar

com suas nojentas intenções

ou projetá-las em mim

 

Na sua idade, você deveria ter consciência:

usar sua hierarquia para

sondar a ingenuidade dos dezoito anos

recém chegados numa nova cidade e se descobrindo,

é abuso!

 

Depreciar a capacidade de alguém,

vigiar por três anos essa pessoa,

se dar ao direito de ter instintos sobre ela,

é abuso!

É nojento!

É doentio!

 

E se a diferença de idade fosse menor?

Você libertaria seus instintos?

Em suas palavras, você só os controlou

por achar ridículo

eles se manifestarem

por alguém tão mais nova!

 

Sim, caí na sua manipulação

foram três anos, mais

alguns momentos de fragilidade

 

Tentei me enganar:

menti que estava tudo bem

mas passar mal ao te ver

temer sua descoberta ao me relacionar com alguém

estragaram minhas próprias mentiras

 

Você quis me controlar

psicológica, fisicamente

Mas não sou sua!

Não é você que define quem sou

que decide meus caminhos

que define se terei ou não companhia;

Adivinhe? SOU EU!

 

Agora que estou mais forte,

vejo que nunca fui fraca

como você acreditou

Pois mesmo atordoada e inconsciente do perigo,

não cedi totalmente aos seus caprichos!

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Estações

Era uma noite perdida,

tranquila, sozinha,

depois de um outono seco

.

A descrença no amor

se fez quando ele mais esteve presente

meu coração se tornou gelo

.

Mas seu beijo me fez sentir

que o inverno

se transformava em primavera

.

Era só extensão da estação fria?

Ou posso acreditar

na esperança

de um verão?

Depressão

Cada dia aparece

nova batalha

entre me permitir viver

ou ficar no chão frio

abatida pelo sono excessivo

 

Acordar sempre é

parte da vitória diária

de não sucumbir à paralisia

quase total

 

E fugir é a melhor forma

de fingir que a felicidade

também foi feita para mim

longe de caixas

compradas em farmácia

Escrita

Escrevo porque sinto dor

Escrevo porque meus versos são sangue

Escrevo porque a poesia é crua

Escrevo para não me entregar

Escrevo porque meu espírito precisa de força

Escrevo porque minha alma quer partir

Escrevo porque ainda quero ficar

Escrevo porque estou aprendendo

Escrevo porque viver é o que mais temo

Escrevo porque temo o que mais amo

Escrevo porque essas linhas são lágrimas

Escrevo porque escolhi seguir

Escrevo porque cansei de chorar

Escrevo porque não estou sozinha

Escrevo para me purificar

Escrevo porque estou doente

Escrevo para me curar

Vidência

-Conte-nos o futuro! 

o que acontecerá? 

Perderemos sonhos 

protegendo a vida? 

Perdoaremos homicídios 

esquecendo suicídios? 

Curaremos doenças 

com tempo de rezar? 

Moraremos no deserto 

para nos salvar? 

 

-Protegeremos sonhos 

esquecendo a vida. 

Perdoaremos suicídios 

antes de homicídios. 

Rezaremos 

curando doenças. 

Moraremos no deserto, 

sem esquecer 

que a neve noturna 

é a água da manhã.

Juventude

Estamos no meio da tempestade

protegidos por um

guarda-chuva

furado

 

Amanhã já temos o mundo,

nos esqueçamos dele por enquanto!

 

A vida

é agora

e implora para ser sentida,

vivida

(sem moderação)

 

É hora de começar nossos destinos

sem preocupações, pois

já estamos perdidos entre os caminhos

sem saber quem somos

 

Sentimentos se descobrem

sem limites ou diferenciações

e a realidade a gente constrói para

no fim

viver

A vida, apenas

(sem complicações)

 

 

Monólogo com um retrato na parede

Não sou quem vocês sonharam

não me tornei o que queriam

minhas opiniões não são as suas

vivo num mundo que não é de vocês

 

Tentamos me encaixar várias vezes

nasci desencaixada

Sigo sentindo do meu jeito

amando à minha própria forma

 

Luto pelo que não acreditam

sonho pelo que não aceitam

choro, pois me rejeitam

Mas chega de me calar!

 

Meu manifesto não é ridículo

meus ideais não são utópicos

minha personalidade não é constrangedora

eu não sou vergonha!

 

E daí que eu me vista assim?

E daí que eu pense assim?

E daí que eu aparente assim?

E daí que eu seja assim?

 

Peço alteridade, não austeridade

não posso me esconder por fatos sociais

Não quiseram me dar asas?

Pois parem de tentar controlar

meu desajeitado voo solo

Ciclo

Um dia é só mais um dia

tempo se esvai

sem perceber

 

Fases mudam

sempre igual:

vivo em eterna lua cheia!

 

Mesmas músicas

olhares, locais

melancolia preenche

 

Estações seguem?

Trem parado, inverno

graveto segura avalanche

 

Baratas se alimentam

restos soterrados na neve

mais uma ex-perança