Passageiro

-É passageiro- me disse um baiano

Ou era Preto Velho?

Mas -é passageiro-, ele disse…

e que há um futuro de luz

 

– Por que não vai atrás?-

Esse era baiano, certeza

– Ou então procure outros-

mas por que não ir atrás?

 

Marinheiro alertou:

-Você entrega seu coração fácil demais,

hora de aprender a ser racional.

Rodou? Vai vomitar!-

 

E desci do barco

senti as ondas e fiquei mareada

não sei se segui

em água, terra ou ar

 

Mas o  barco afundando

e eu tentando remar

do lado de fora

e o marinheiro indo embora

 

E é passageiro,

sempre foi

Ou passageira sou eu?

Sempre fui?

 

Ou a dor…

 

Mas o barco afundando

e eu atrás da passagem

e a luz surgindo ao horizonte

e o passageiro indo embora

 

E eu rodando

e o passageiro sumindo

e a luz surgindo ao horizonte

E a dor? Ah!

 

-O sufoco é passageiro- me disse um baiano

Ou era Preto Velho?

Mas -é passageiro-, ele disse…

e que há um futuro de luz

 

Mas o barco afundando

e o passageiro…

Confundi a embarcação!

Onde estou?

 

Marinheiro alertou:

-Não se faça, sua mão sempre foi beijada,

amadureça

aqui nunca se falou de amor!-

 

E me lanço ao mar

escolho um barco

Passageiro

E a luz surgindo ao horizonte

Por que não ir atrás?

 

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Releitura

Persona non Grata

No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto,comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu. – Machado de Assis

No primeiro dia, escrevi um livro de poemas suicidas e talvez uma carta de despedida. No segundo, pensei em virar freira, escutei as palavras de um pastor, fui ao terreiro e acendi um incenso. No terceiro, bebi até cair. No quarto, escrevi uma carta que depois queimei. No quinto, apaguei qualquer futuro e no sexto deixei de sonhar pelas noites solitárias. Em seis dias Deus fez o mundo e eu descartei o meu. No sétimo, resolvi jogar xadrez.

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Crônica | A(s) mulher(es) que me inspira(m)…

Scenarium livros artesanais

Por Adriana Elisa Bozzetto


Março é um mês carregado de significados. É marcado pela quaresma cristã e eventualmente pela páscoa. Também é quando começa um novo ano astrológico, tem o equinócio de outono e as águas do mês fecham o verão. Mas acima de tudo, é um mês de luta, marcado por seu dia 08, dia internacional das mulheres, data assim nomeada em referência a um contexto de lutas femininas por melhores condições de trabalho e de vida. Lutas que seguem, ainda que em novos rumos, com novas características e enfrentando problemas que perduram de outros tempos, além dos que surgem na atualidade. E próximo ao fechamento do mês, estou aqui pensando no que escrever diante do tema “a mulher que me inspira”.

Existe, é claro, uma visão romantizada da inspiração feminina. Poderia criar, por exemplo, uma musa inspiradora próxima à perfeição em meio a deliciosos defeitos e descrevê-la aqui…

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O homem das mil faces

Ele não era um, era vários. Quem o conhecia em um ambiente o desconhecia em outro. Em alguns lugares namorava, em outros era solteiro. Tinha grandes histórias de amor espalhadas pelo país, mas não se sabia ao certo quais eram reais ou não. Algumas já tinham acabado, apesar dele não perceber. Outras, as mais românticas, eram contadas a dois, mas vividas apenas por um. Entre suas mulheres mais amadas, poucas eram aquelas que tinham qualquer conhecimento sobre o relacionamento que ele acreditava ser real.

Ele usava máscaras minuciosamente esculpidas para cada ocasião. Ele mesmo as fabricava. Eram todas bonitas, grandiosas, cheias de histórias e razões. Que espetáculo ver como aquele homem manipulava cada máscara e se transformava conforme a peça que criava para si! E as máscaras eram elaboradas, se desmontavam e remontavam conforme a necessidade. Podiam ser usadas por inteiro, em partes ou até mesmo se encaixar em outras. Uma única máscara conseguia se tornar pelo menos dez e ir se readaptando conforme o local a ser encenada a narrativa criada para ela.

Às vezes ele esquecia de trocar a máscara ou acabava misturando as histórias sem querer. Mas dificilmente o público percebia. Ou pelo menos parecia não se importar com esses deslizes. Ele era bom atuando! Tão bom, que em alguns momentos nem ele conseguia distinguir mais o que era ou não real. E seus roteiros eram sofisticados: incluíam misticismo, espiritualidade, profissionalismo, seriedade, romance, distâncias, encontros e desencontros… Tinha capacidade de agradar a qualquer um e geralmente era certeiro ao escolher o que apresentaria de acordo com quem o assistia.

Foi se especializando tanto em sua arte, que começou a moldar máscaras para outras pessoas e a criar peças para elas também. Eram quase tão elaboradas quanto as que usava para si. O único problema é que ele não gostava de oferecer essas histórias aos outros, mas de impor. Como era mais difícil conseguir convencer dessa forma, ele observava as pessoas até encontrar alguém que pudesse ser transformado em ator sem perceber e que acreditasse nesses roteiros extras. Assumiu então sua máscara de caça e começou a  procurar elenco para suas obras derivadas. Desenvolveu um gosto por atrizes mais novas e ingênuas e traçou uma estratégia para contratá-las em regime de exclusividade: se aproximava de forma paternal, convencia-as de que sentiam algo por ele e, nos pequenos detalhes, as fazia acreditar que eram, sentiam e viviam tudo o que ele escrevia. Sem entender, vestiam as máscaras e eram envoltas por uma névoa que as impedia de enxergar com clareza o que acontecia ao redor.

Mas ele queria mais, sempre mais! Vestiu uma máscara uma vez tão bem feita, que ele acreditou ser seu próprio rosto. Essa máscara foi moldada a partir de seu ego e o roteiro que a acompanhava envolvia grandes feitos, condecorações, conquistas, messianidade, beleza e unicidade. Naquela história ele era insubstituível, o mais importante, essencial a tudo e a todos, detentor de sabedoria insuperável e tinha o absoluto controle de tudo. Como ele gostava daquela máscara! E ela convencia o público. Poucos consideravam o roteiro falho ou contestável. Ela tornou mais desafiadora a confecção de máscaras para terceiros, o que deixava ainda mais prazerosa a caça a novos elencos.

Seus instintos afloraram como nunca, até se tornarem quase incontroláveis. A máscara o cegava e o fazia acreditar que era uma boa pessoa apesar de suas ações duvidosas. Talvez até fosse realmente uma boa pessoa, mas começou a fazer mal aos outros sem perceber, convicto de que estava sempre certo. Não via que se impunha como superior por fazer das pessoas ao seu redor inferiores. Se sentisse seu protagonismo ameaçado, desprezava o resto de seu elenco, essencialmente feminino. Desvalorizava suas atrizes utilizando-se de sua idade, hierarquia e gênero. Fazia com que elas acreditassem ser incapazes de qualquer coisa sozinhas e as adoecia psicologicamente para convencê-las de que eram frágeis e precisavam dele.

Ele também adoecia conforme deixava a máscara derreter em seu rosto e grudar em sua pele. Ocasionalmente se lembrava que usava tal acessório, mas não conseguia mais tirá-lo integralmente. Nessas horas, buscava desesperado por uma de suas atrizes para ajudá-lo a voltar a si, mas sua própria história já o controlava. Levava as garotas ao seu camarim. As agredia pensando que o que suas mãos e lábios entregavam eram carícias. Procurava alguma verdade no que havia criado e encontrava corações amedrontados e destruídos. Tentava se entregar mas fugia como uma fera a qualquer sinal de que seu verdadeiro rosto poderia ser mostrado. Ele se sentia como Henry Jekyll sendo sufocado e dominado por Edward Hyde. Construía novas máscaras para sua máscara e, quando a peça se tornava insuportável e insustentável em determinado cenário, ia embora e trocava de palco.

Passou a vida inteira assim e poucas foram as pessoas que conseguiram algum dia ver ao menos partes do homem que havia se deixado levar por suas máscaras. Algumas de suas atrizes conseguiram enxergar um pouco de humanidade naquela figura possuída por seus próprios delírios. O que viram foi um homem perdido e tentando escapar de suas próprias dores. Não conseguiram odiar aquele personagem que, a despeito do que criava para si, era completamente ordinário, sofrido e tão apegado a suas mentiras. O único sentimento que puderam ter por ele foi pena. Até tentaram ajudá-lo antes de fugir, mas só receberam humilhação em resposta. Não se sabe se ele chegou a experimentar qualquer tipo de afeto ou ternura espontânea e verdadeira algum dia. Só se sabe que ele optou por viver sempre assim, entre suas mil faces e longe de si.

Sinto tua energia

me perseguindo

novamente

 

Ressurges

em meus gestos,

sonhos e versos

 

Tua presença

distante

me rodeia e assombra

 

O que deixaste em mim

que insiste

em te trazer de volta?

 

Minha língua trava

para não soltar teu nome

pendurado nela

 

Lembro de ti

tão só, tão desesperado,

tão perdido

 

E aqui estou eu mais uma vez

diante de teus abismos

ressentindo a vertigem

 

Peças-me perdão

e o concederei sem pestanejar

¡Mas tire de mim o peso da pena!

 

Me ajude a nos libertar de nós mesmos:

juntos nada mais poderíamos ser

além de veneno e ácido

¡permita-nos viver!

Coreografia

Quando a vida cala o canto

ainda resta a dança

para expressar a música

 

E de passo em passo

o baile se forma

as almas se encontram

 

Dançando

tudo é assim,

suave e intenso

 

A dança combina

com minha forma de amar:

profunda e limitada

ao tempo de uma canção

Tempestade

Ondas vão e vêm

batem nas rochas

pousam na areia

 

Quanto dura uma tempestade?

 

Vento soprando

várias direções

mar agitado

 

Tempestade passa ou descansa?

 

Águas livres, nômades

doce sal

sol ardente

 

Como não navegar pela tempestade fresca?