Desintoxicação

Em você me reabilitei

mas forcei feridas,

vívidas

lembranças

 

Me viciei em dores

misturadas com afeto

silenciosamente suportando

o sempre insuportável

 

Um beijo dilacerou

mais que palavras

embriagadas

abertura de temores

 

Seu mundo me absorveu

com suas mãos

em meu rosto

pela primeira vez

 

Seu carinho foi brisa

na febre

Quem dera você tivesse me tocado

quando te toquei

 

Sua voz soou música

seu olhar virou poesia

Fui embora te sentindo

abstinência cruel!

 

Dias mais frios

te querendo

te afastando

Como te esquecer?

 

Me pergunto:

¿errei?

Ou não há erros ao sair

do que já intoxicou?

 

Seres desestabilizantes

prendem paixões

pela omissão

de qualquer resposta

 

Destino segue seu caminho (?)

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Carta para meu professor

Caro professor,

Não pedirei mais licença:

minha vez de falar!

Seu orgulho e vaidade vão te permitir me ouvir?

 

Minha depressão

nunca foi abertura para se aproximar

com suas nojentas intenções

ou projetá-las em mim

 

Na sua idade, você deveria ter consciência:

usar sua hierarquia para

sondar a ingenuidade dos dezoito anos

recém chegados numa nova cidade e se descobrindo,

é abuso!

 

Depreciar a capacidade de alguém,

vigiar por três anos essa pessoa,

se dar ao direito de ter instintos sobre ela,

é abuso!

É nojento!

É doentio!

 

E se a diferença de idade fosse menor?

Você libertaria seus instintos?

Em suas palavras, você só os controlou

por achar ridículo

eles se manifestarem

por alguém tão mais nova!

 

Sim, caí na sua manipulação

foram três anos, mais

alguns momentos de fragilidade

 

Tentei me enganar:

menti que estava tudo bem

mas passar mal ao te ver

temer sua descoberta ao me relacionar com alguém

estragaram minhas próprias mentiras

 

Você quis me controlar

psicológica, fisicamente

Mas não sou sua!

Não é você que define quem sou

que decide meus caminhos

que define se terei ou não companhia;

Adivinhe? SOU EU!

 

Agora que estou mais forte,

vejo que nunca fui fraca

como você acreditou

Pois mesmo atordoada e inconsciente do perigo,

não cedi totalmente aos seus caprichos!

Estações

Era uma noite perdida,

tranquila, sozinha,

depois de um outono seco

.

A descrença no amor

se fez quando ele mais esteve presente

meu coração se tornou gelo

.

Mas seu beijo me fez sentir

que o inverno

se transformava em primavera

.

Era só extensão da estação fria?

Ou posso acreditar

na esperança

de um verão?

Escrita

Escrevo porque sinto dor

Escrevo porque meus versos são sangue

Escrevo porque a poesia é crua

Escrevo para não me entregar

Escrevo porque meu espírito precisa de força

Escrevo porque minha alma quer partir

Escrevo porque ainda quero ficar

Escrevo porque estou aprendendo

Escrevo porque viver é o que mais temo

Escrevo porque temo o que mais amo

Escrevo porque essas linhas são lágrimas

Escrevo porque escolhi seguir

Escrevo porque cansei de chorar

Escrevo porque não estou sozinha

Escrevo para me purificar

Escrevo porque estou doente

Escrevo para me curar

Juventude

Estamos no meio da tempestade

protegidos por um

guarda-chuva

furado

 

Amanhã já temos o mundo,

nos esqueçamos dele por enquanto!

 

A vida

é agora

e implora para ser sentida,

vivida

(sem moderação)

 

É hora de começar nossos destinos

sem preocupações, pois

já estamos perdidos entre os caminhos

sem saber quem somos

 

Sentimentos se descobrem

sem limites ou diferenciações

e a realidade a gente constrói para

no fim

viver

A vida, apenas

(sem complicações)

 

 

Monólogo com um retrato na parede

Não sou quem vocês sonharam

não me tornei o que queriam

minhas opiniões não são as suas

vivo num mundo que não é de vocês

 

Tentamos me encaixar várias vezes

nasci desencaixada

Sigo sentindo do meu jeito

amando à minha própria forma

 

Luto pelo que não acreditam

sonho pelo que não aceitam

choro, pois me rejeitam

Mas chega de me calar!

 

Meu manifesto não é ridículo

meus ideais não são utópicos

minha personalidade não é constrangedora

eu não sou vergonha!

 

E daí que eu me vista assim?

E daí que eu pense assim?

E daí que eu aparente assim?

E daí que eu seja assim?

 

Peço alteridade, não austeridade

não posso me esconder por fatos sociais

Não quiseram me dar asas?

Pois parem de tentar controlar

meu desajeitado voo solo

Carta de consolo 

Quem está aí,

atrás dessa porta, se lamentando?

Ah, é você!

A vida tem sido dura, não?

Mas tudo bem estar assim, sua fragilidade também é força

e ser forte é também saber aceitar ajuda

Não se preocupe com o que escorre de seu rosto neste momento

a pele morna vai te confortar em breve

    

Você pode até se zangar e não entender

mas mesmo que não queira, estarei ao seu lado para lutar

por e com você 

É difícil, eu sei

já vivi ofuscada por essa escuridão 

já estive prestes a desistir também 

Mas aprendi, nos momentos difíceis, que não estou sozinha 

E quero que saiba: você também não está!

   

Então chore, mesmo que seja pouco 

Guardar essas lágrimas só vai te empurrar para um precipício 

Chore, pois há dias mais cinzas que outros

são nesses que você precisa se livrar da sua dor

Só assim conseguirá entender:

a vida é feita do pranto necessário

para que se possa reaprender a sorrir a cada dia

e valorizar todas as cores

Cartinha desapaixonada

O que foi isso que

me fez só pensar

em te esquecer?

 

Acho que foi a falta da sua voz, mesmo ríspida,

ou sua ausência insuportável, que me partiu

Nem sei mais quanto chorei

 

E você foi desmoronando

todas minhas barreiras

Este poema foi só mais uma promessa que quebrei

 

Acho que me perdi apaixonada

em seu corpo, seu jeito

Nem sei para onde isso me levou…

Do paraíso ao inferno?

Já não me importa mais

 

Pois quando você veio atrás, eu tinha seguido em frente

agora fique com seu Chico Buarque,

entregue-o talvez para quem você já dedica Pablo Neruda

Saiba que as cartas e os astros

deixaram meu destino livre para o que eu escolher