Partida

Fecho os olhos e escuto o som do mar. O sol se põe em breve, o cheiro da maresia me inebria. Há um pequeno rato brincando entre os barcos jogados na areia… Inocente, parece não saber o asco que causa nas pessoas. Mas perto do mar ele guarda certo encanto enquanto corre na praia. A vista para o morro é ainda mais bonita durante os últimos raios solares; cada casa irregular carrega um pouco de charme consigo.

O sol já se pôs, está tudo escuro e as estrelas, tímidas, começam a aparecer. Sento nas pedras, pois o mar me chama. Sinto-o com toda sua força chegando perto de mim, implorando para eu ir ao seu encontro. Me rendo e coloco os pés na água, que acaricia minhas pernas e convida a entrar mais. A cada onda me sinto mais leve e as energias negativas se dissipam.

Caminho então em direção ao horizonte. Vejo pouco; está escuro e uma chuva fraca ofusca as estrelas. Não ligo, gosto do sabor que tem quando a água doce e a salgada se misturam em minha pele.

Meu corpo pede para que eu mergulhe e fique entre as ondas no meio da noite. A embriaguez da madrugada me faz ceder aos meus próprios caprichos. Enquanto afundo, todas minhas dores vão embora. Sinto uma febre, que eu não sabia ter, cessar. Não consigo mais sair daqui, cada parte minha se perdeu em prazer em meio à espuma. Já decidi: fico! Fico até que seja eu mais uma parte do mar.

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Manu e a bicicleta

Manu estava em fase de experiência de seu primeiro emprego. Andando, era meia hora de caminhada de sua casa até o trabalho. Era uma caminhada tranquila, com exceção do calor típico de mais de 30°C que fazia em sua cidade quase o ano inteiro. No primeiro dia de caminhada após o almoço, Manu passou mal. Nos outros dias, continuou passando mal.

Como não tinha habilitação e táxi era inviável, pensou em três alternativas: ônibus, patins ou uma bicicleta. Manu odiava andar de bicicleta: sempre preferiu andar de patins na infância e na adolescência. Por causa de problemas no joelho, também tinha recomendação médica de evitar exercícios tais como escadas e bicicletas. Só que patins não parecia ser uma boa alternativa, considerando a falta de calçadas e a quantidade exagerada de buracos que existiam nas ruas de sua cidade. Mas o sistema de transporte público lá também não era muito eficiente e os horários dos ônibus não atendiam suas necessidades. Manu decidiu então optar pela bicicleta.

Como já tinha começado a bater ponto na empresa, decidiu comprar a bicicleta contando com o salário que receberia no mês seguinte. Não resistiu e escolheu uma rosa, com cestinha. Pouco feliz com a compra, fez sua estreia como ciclista pedalando até um banco. De joelheira e evitando trajetos mais arriscados, sobreviveu à experiência! Dois dias depois, foi chamada no RH da empresa.

– Sentimos muito, a sede decidiu que não contrataria ninguém este ano. Culpa da crise, entende?

Manu, na chuva, pegou sua bicicleta nova e foi para casa. No caminho, parou para depositar o cheque com o valor equivalente aos dias em que havia batido ponto; a quantia pagava meia bicicleta. Por sorte, a outra metade pôde ser suprida com o pagamento de um serviço de panfletagem feito durante um fim de semana. Como também estava de TPM naquele dia, parou numa loja de doce para comprar chocolates e passou o resto do dia chorando por qualquer razão que aparecesse e comendo em seu apartamento.

Superado o momento, começou a se adaptar à bicicleta e a utiliza-la como meio de transporte no dia a dia para a faculdade e para onde mais precisasse ir. Um dia, pela manhã, foi tirar seu celular do carregador e notou, surpresa, que a bateria do aparelho estava inchada. Sabendo dos perigos de uma bateria inchada e tendo consciência de que seu celular barato comprado numa loja de esquina não tinha uma garantia segura, decidiu que iria comprar um novo aparelho num local mais confiável e em que fosse mais fácil de ser socorrida numa situação dessas. Mas antes de ir para a loja, passaria no hospital para pegar o resultado de alguns exames. Era início de tarde, foi de bicicleta e Manu colocou seu transporte junto ao portão do hospital e trancou o cadeado. Na saída, sua chave quebrou dentro dele. Não teve dúvidas: chamou sua amiga, pegaram sua caixa de ferramentas cor-de-rosa e foram as duas, uma e meia da tarde, no centro da cidade, arrombar o tal cadeado da bicicleta.

Passaram uns 30 minutos martelando o cadeado enquanto recebiam alguns olhares desconfiados de quem passava. Resolveram pedir para o segurança, que cuidava da entrada do hospital, alguma ferramenta que as pudesse ajudar a cortar o cadeado. Manu mostrou o pedaço de chave que havia restado em seu chaveiro e tentou explicar a situação da forma mais normal possível. Como o segurança chegou à conclusão de que as duas não tinham lá talento para serem ladras e provavelmente estavam dizendo a verdade, arranjou um alicate de corte e as amigas puderam seguir com a programação normal do dia.

Um tempo passou e Manu comprou um cadeado novo, com uma chave mais resistente. No mesmo dia em que comprou, foi para a faculdade. Como estava chovendo, voltou de carona e colocou no chaveiro as duas chaves que vinham com o cadeado. Chegou em casa, as chaves do cadeado haviam sumido. Incrédula, Manu passou uma semana procurando pelas chaves enquanto sua bicicleta repousava na faculdade. Quando cansou de procurar, pegou uma lima emprestada, se juntou com três colegas e o guarda da faculdade e arrombaram o segundo cadeado da bicicleta. A recém-formada gangue comemorou o pequeno crime e Manu recuperou seu meio de transporte. Misteriosamente e como a vida gosta de um pouco de humor, no dia seguinte as chaves apareceram em sua caixa de correio.

O terceiro cadeado comprado por Manu, já foi planejado para ter a chave forte e, em última instância, ser fácil de arrombar. Assim que comprou o cadeado, Manu chegou em casa e colocou uma das chaves em seu esconderijo secreto onde guardava seus bens mais preciosos. Foi sua salvação, pois a chave que estava em seu chaveiro resolveu, num lindo dia, desaparecer sem maiores explicações. O caso nunca seria resolvido, mas a chave reserva continuou ali, reluzente e bela no chaveiro de Manu.

Passada a fase de problemas com chaves e cadeados, Manu e sua bicicleta passaram por vários momentos juntas. Em um deles, sofreram um assalto, o primeiro de ambas, a mão armada e com direito a serem xingadas pelo assaltante. Em outros, se perderam, tomaram chuva e capotaram lindamente na calçada. Manu até que está inteira, mas a bicicleta, coitada, já perdeu freio, perdeu pedal e está toda arranhada: constantemente precisa ser levada ao conserto. Mas Manu já aprendeu a gostar dela e se apegou ao objeto. Quanto aos cadeados arrombados, estes foram guardados como forma de recordação. Quem sabe não sejam transformados em quadros e não façam parte de uma decoração um tanto quanto peculiar?

Amor expresso, conto 51*

Ela, pessoa reservada e de pouco contato social, tinha suas próprias tradições: gostava de oferecer para algumas visitas, quando as recebia, café. Apenas o café, nada mais. Como não costumava comer entre as refeições, raramente tinha algum petisco ou algo a oferecer além do café. Não gostava de adoçar as coisas, então havia dias em que simplesmente não tinha açúcar ou adoçante para disponibilizar às visitas. Quando pediam algo para adoçar a bebida, ficava confusa: como podiam estragar tal sabor?  Ficava sem graça se pedissem por algo a mais que ela não tinha para ofertar naquele momento. Para ela, o café expresso era o melhor item que poderia oferecer para alguém. E ela escolhia cuidadosamente que café ofereceria para cada pessoa, buscando dialogar sempre gosto, com personalidade e intensidade. Para ela, o café, preto e intenso representava a vida em sua força e capacidade de proporcionar grandes prazeres, apesar das queimaduras na boca. Havia muito mais significado em oferecer uma xícara de café amargo, pensava, do que supunham os romantismos baratos e as tolas regras de etiqueta social.

*Amor expresso é nome do livro da autora Adriana Aneli, publicado pela editora Scenarium. O livro consiste em 50 mini-contos que tem o café como tema.

“I’ll Never Get Out of These Blues Alive”

A pior parte de trabalhar fora, pensava Joana, não era nem a de ter que usar roupas sociais e ter que interagir com os colegas, mas era a de ter que ficar longe daquilo que mais amava: o blues. Até queria escutar algo durante o trabalho, mas como parte do que a sociedade convencionou como regras da boa convivência, não podia ouvir suas músicas alto. Fones de ouvido seriam uma opção, se não fossem tão mal vistos pela chefia, se não tivessem sido terminantemente proibidos por seu otorrino e se não cortassem tanto assim a emoção do ritmo. Antissocial como era, a única amizade que conservava no trabalho era a cafeteira elétrica, responsável por manter o pouco de sanidade mental que era possível ter naquele ambiente sem música.

Mas um dia, tragédia: a cafeteira quebrou! O colapso veio quando os funcionários começaram a levar café pronto em garrafas térmicas. A socialização inevitável para pegar o café não foi tão ruim quanto o maior sofrimento que Joana havia presenciado na empresa até então: o café, feito e trazido por aquela gente, pobre café, havia sido destituído de qualquer personalidade, de tão aguado e açucarado, coitado… Joana até tinha sua própria cafeteira em casa, mas jamais arriscaria a integridade de sua querida posse levando-a àquelas pessoas tão barulhentas, atrapalhadas e cruéis.

Respirou fundo, tomou uma decisão e foi falar com sua chefe. Expôs o fato de sempre ter sido boa funcionária e de que gostaria muito de trabalhar em sua própria casa. Devido seu histórico profissional, ganhou um mês de experiência para depois obter uma resposta definitiva. Joana comemorou a chance com seu pijama favorito, fumando um cigarro e bebendo café, amargo, denso, preto e intenso, como deve ser.

Durante aquele mês, só saiu de casa nos dias em que Antônia, sua faxineira trabalhava. Mesmo assim, Joana ia no máximo ao mercado. De pijama mesmo, pois era a melhor roupa possível para ir a qualquer lugar. Conciliava o trabalho com seus discos de blues, no último volume. Só abaixava o som quando dava o horário da lei do silêncio. Quando se cansava de trabalhar ou não conseguia prosseguir com o que estava fazendo, pausava tudo para dançar um pouco, pegar a guitarra, que por muito tempo havia ficado encostada, e praticar o ritmo. Isso refrescava sua mente e a tornava mais produtiva, além de começar a trazer avanços significativos para ela como guitarrista. Chegado o fim do mês, sua melhoria em termos de produtividade e qualidade no trabalho foram notáveis e a tão aguardada resposta afirmativa foi dada. Ela nunca mais precisaria trabalhar ao redor daquelas pessoas!

O tempo foi passando e ela ficava cada vez mais imersa em sua paixão. Não havia um minuto em que ela ficava sem música, não queria saber mais de nada, nem de ninguém. Queria apenas ficar a sós em seu mundo blues. Terminava seu trabalho o mais rápido possível para voltar toda sua atenção à música. Escutou e estudou tanto blues neste período, que começou a compor. Foi fatal: tirou férias e, se antes já não tirava mais seu pijama nem penteava o cabelo, agora mal se alimentava, só bebia café e fumava e já não saía por nada, nem mesmo nos dias que Antônia aparecia. “É louca, mas paga bem e até que é gente boa”, pensava a moça quando ia para lá. “E toca uma música legal”, completava.

Joana já havia perdido qualquer noção de barulho e todos que passavam na rua conseguiam ouvir o som que saía de sua casa, a qualquer hora do dia. A misteriosa figura que tocava blues diariamente e nunca aparecia em público, despertava a curiosidade das pessoas. Antônia comentava o fato com Joana, que nem prestava atenção. Preocupada, às vezes a moça perguntava se ela tinha algum amigo. “B. B. King, Muddy Waters e Helen Humes são alguns deles”, era a resposta padrão. Joana também lhe confidenciou certa vez que mantinha uma paixão quase secreta por um tal de John Lee Hooker.

Um dia, algo estranho aconteceu: tocaram a campainha de Joana. Ela se assustou com o fato inusitado, nem se lembrava mais que existia aquele som. Era um homem, dono do café que, para a surpresa dela, abrira já havia algum tempo ao lado de sua casa. Ele, fã incondicional de blues, confessou que não conseguia mais se conter e que precisava que ela tocasse em seu café todas as noites possíveis. Ofereceu-lhe emprego fixo, com carteira assinada e qualquer coisa que ela pedisse, tamanho seu desespero para tê-la tocando em seu café.

Joana ponderou e fez poucas exigências: pediu que pudesse beber quanto café quisesse e que fosse dado a este o devido respeito merecido. Pediu que pudesse trabalhar de pijamas e sem exigências quanto a maquiagem e cabelo e, o mais importante, pediu que tocasse sempre sozinha, num canto mais afastado das mesas e que não fosse obrigada a interagir com o público. Para ela era importante manter sua individualidade, coisa de artista, sabe? Propostas aceitas, contrato fechado. Foi até a empresa pedir demissão de seu antigo cargo. Seu aspecto físico assustou um pouco os funcionários, acostumados até então com roupas formais e cabelos reprimidos. “Até nunca mais”, pensava, entoando mais um pouco de blues em sua cabeça.

Despedida

Judite gostava de sentar na escada. Para ler, descansar, esperar algo ou alguém… Gostava de ficar lá, ocupando o terceiro ou quarto degrau, atrapalhando eventuais fluxos e observando cada um que passava. Considerava as escadas acolhedoras, confortáveis e distrativas.

Uma noite, na faculdade, após a aula, conversava na escada com seus amigos. Um assobio de vento passou pelo grupo e ela sentiu um leve arrepio; continuaram a conversar. Então ela escutou um barulho estranhamente familiar de chaves se batendo vindo do corredor de entrada do prédio. Curiosa, olhou em direção ao barulho. Empalideceu! Com olhos arregalados e voz trêmula, perguntou aos amigos, que notaram sua repentina mudança de estado:

– V-vocês veem aquele homem vindo em nossa direção?

Fizeram que sim, sem entender a reação de Judite, que em transe levantou e seguiu em direção à figura que havia parado de andar.

– Quem é você?- perguntou Judite, após um pesado suspiro e ainda em choque.

– Você sabe quem eu sou… Sim, sou eu mesmo. Isso não é um delírio.

– Mas como é possível? Já são dez anos desde que você…

– Morreu? Eu sei, mas você pediu e eu vim. Você… Está com medo?

– Não. – respondeu Judite, com ar de incredulidade – Você é meu pai! Como eu poderia?… Você é sólido? Posso te tocar?

– Sim.

Judite então pulou no pescoço de seu pai, abraçando-o com toda a força que tinha. Começou a chorar e a soluçar descontroladamente, enquanto sentia no terno dele um perfume que há tempos existia só nas lembranças. Seus amigos foram perguntar o que estava acontecendo, mas ela não conseguia verbalizar uma resposta e indicou, através de gestos, que estava bem.

Chamou seu pai para sentar em um banco do lado de fora e, como se tivesse voltado a ser criança, se aninhou em seu colo e voltou a chorar enquanto ele a confortava e tentava acalmá-la. Chorou o que estava acumulado fazia já dez anos e, quando acabou, Judite começou a sorrir enquanto se enchia de serenidade.

– Quanto tempo você tem aqui? – perguntou delicadamente.

– Alguns minutos, apenas. Minha transição foi brusca e antecipada, vim aqui encerrar o que deixei em aberto.

– E com a mamãe, você já falou? Preciso te levar até ela! E com a Laura?

– Não se preocupe, já falei com ela. Quanto à sua irmã, não posso visitá-la; por causa do ceticismo dela, só lhe trarei dor e não quero fazer isso. Agora, feche os olhos.

Judite obedeceu. Quando abriu os olhos, estavam em algum lugar imaterial e cercado de energias. Antes que ela pudesse expressar alguma coisa, seu pai começou a falar:

– Quero que saiba que está tudo bem. Passei estes dez anos me curando de meus monstros e sei que você sentiu parte de minha tortura. Agora quero que você sinta também como é uma alma curada. Cometi muitos erros e você não deveria ter sofrido por eles. Vou embora agora, finalmente descansar em paz e não há mais motivos para sofrer, pois está tudo bem. Antes de partir, vou te deixar um último presente.

E a abraçou. E ela o abraçou de volta. E se abraçaram tão forte, mas tão forte, que ele começou a se desfazer em luz e energia. E, de repente, uma parte quente e reconfortante desta energia foi absorvida pelo coração de Judite que, quando se deu conta, estava em seu quarto, deitada em sua cama. Uma lágrima morna e carinhosa escorreu em seu rosto. Dormiu, sentindo a energia curativa dentro de si: estava tudo bem afinal!

Hoyo hoyo*

Passados alguns dias após a turbulenta chegada de Bruna e Elisa em Maputo, as intercambistas começavam a se acostumar com a nova realidade em que estavam inseridas: água fria, doze andares de escada e coca-cola barata.

No segundo dia em que estavam lá, foram a um supermercado sul-africano comprar o café da manhã que se resumiu em uma deliciosa bolacha de limão e em um suco (lá chamado de sumo). Em seguida, resolveram que iriam para a universidade regularizar suas situações como acadêmicas. Pegaram uma espécie de táxi que nada mais era do que um triciclo motorizado que andava loucamente entre os veículos nas ruas e os pedestres nas calçadas. Recebia o nome de txopela ou tuc-tuc. Elisa demoraria ainda algumas semanas para aprender. As duas amigas perguntaram o preço da corrida e, baseadas em um documentário que assistiram antes da viagem, negociaram o valor. Ficaram orgulhosas delas mesmas por terem feito igual à mulher do vídeo. Naquele momento, Bruna e Elisa sentiam-se verdadeiras moçambicanas!

Chegaram na universidade, mas não conseguiram resolver muita coisa naquele dia: levariam cerca de duas semanas entre descobrir as matérias ofertadas, encontrar as salas e efetivamente começarem as aulas. Fazer a matrícula? Só depois de muita briga e uma semana antes das aulas acabarem. Mas Bruna e Elisa não sabiam disso e mantinham a cândida esperança de que tudo seria facilmente resolvido em alguns dias.

Na hora de voltar para o alojamento, pegaram um chapa pela primeira vez. Chapa é um meio de transporte público em Moçambique que consiste em vans velhas e em sua maioria sem revisão ou manutenção, que percorrem desde pequenos trechos dentro das cidades até viagens mais longas, com muito mais gente do que deveria caber dentro dos veículos, mas que é bem barato e que costuma ter músicas boas e animadas tocando. Ficaram confusas na hora de encontrar o cobrador para pagar o transporte, mas ficou tudo bem; desceram na paragem.

Almoçaram no refeitório do alojamento e subiram para o apartamento. Inicialmente, tiveram a ideia de se organizarem para que no dia-a-dia pudessem subir e descer apenas uma vez os doze andares de escada, mas planejamento e organização nunca foram o forte de Bruna e Elisa que acabaram numa rotina de cerca de três subidas e descidas diárias. Diante do cansaço e sede que sentiam nesta maratona, adotaram algumas soluções que resolveram seus problemas: passaram a carregar garrafinhas d’água e a pensar em como suas pernas ficariam maravilhosas ao longo daqueles quatro meses. Descobriram também que, se de noite depois de uma festa voltassem bêbadas para o prédio, nem sentiriam as escadas. O que antes era apenas uma diversão, tornou-se estratégia para as duas amigas.

Quanto à falta de aquecimento da água no chuveiro, viram que tomar um banho gelado às duas horas da tarde depois de subir as escadas não era tão torturante. Já tomar banho de manhã ou de noite era mais complicado; quando possível, esquentavam a água num fogão formado por duas chapas de ferro que não fazia fogo e que era compartilhado por 8 pessoas que precisavam tomar banho e cozinhar, tarefa demorada em tal fogão. Algumas vezes tinham apenas duas alternativas: passar frio ou dormir sem tomar banho. Elisa resolvia seu dilema entre cantar músicas do filme Frozen e pensar em como seria até positivo adquirir mais anticorpos caso dormisse sem banho.

Dentre os desafios da nova realidade, lavar suas próprias roupas à mão era uma tarefa até agradável: era muito relaxante mexer na água enquanto conversavam com os outros estudantes do alojamento e tinham como vista o Oceano Índico. O único problema era a dor nas costas quando tinham que lavar toalhas, roupas de cama e coberta. Roupas lavadas, tinham que disputar espaço no varal com as vestimentas de cerca de 200 pessoas e se certificar de que a roupa estava bem fixa, pois a lavanderia era no terraço do prédio e era muito fácil observar algo voando de lá sem um rumo definido, livre, leve e solto no forte vento que gostava de visitar os estudantes e de vez em quando impedir que eles conseguissem abrir a porta da cozinha enquanto as coisas davam piruetas lá dentro.

Num momento inicial, o que mais dificultava a vida das duas intercambistas era o idioma: Bruna e Elisa simplesmente não conseguiam entender o português de lá, nem conseguiam se fazer entender. Entraram em uma crise existencial linguística! Conforme passava o tempo, iam se adaptando ao som daquele português tão sensual e maravilhoso lá falado e se perguntavam se pegariam um pouco da linda sonoridade moçambicana em suas falas.

A cada dia, as duas amigas aprendiam mais sobre Moçambique e mais ainda sobre elas mesmas. Enfrentavam a maior parte dos empecilhos com bom-humor e risos. Quando perceberam, já estavam profundamente apaixonadas pelo país, por suas cores, sua hospitalidade, sua população acolhedora e gentil, por tudo. Sabiam que, quando voltassem para o Brasil, teriam muito o que contar, desde histórias tragicômicas a histórias maravilhosas, além de assumirem a responsabilidade de expressar a gratidão ao país africano e de se verem obrigadas constantemente a explicar que, além de África não ser um grande país tribal homogêneo cheio de girafas, zebras e elefantes nas ruas, África não é Waka Waka. Nem Hakuna Matata.

*Hoyo hoyo significa bem vindo em changana, um dos idiomas falados em Moçambique.

Remorso póstumo 1

-Bem-vindo! Ou nem tanto… Como foi mesmo que você chegou aqui? Ah, uma ponte! Pode ir lá, ali, está vendo? À esquerda? Lá se reúnem todos os que pularam de algum lugar. Pode ir, só seguir reto e virar.

-Olá, estávamos esperando por você. Não, imagina… Aqui não existe horário, toda hora é hora! Ninguém se atrasa, não se preocupe. Bom, preparado para participar da sessão? Como assim que… Ah, você é novato. Ninguém ainda te explicou? Somos os “Puladores Anônimos”. Pode ir lá, é a sua vez de falar. O que? Ah, fala qualquer coisa. Também vamos fazer algumas perguntas, fique tranquilo: estamos aqui para te julgar.

-Começar pelo nome? Que clichê. Você nem tem mais nome, sai dessa! Fale de coisas mais interessantes, sobre como era a paisagem, qual a sensação de pular, se doeu muito… Alguns dizem que não sentiram dor nenhuma porque estavam relaxados. Não foi o seu caso? Que pena. Mas quem sabe na próxima? Eu estou aqui pela terceira vez. Já pulei de uma ponte, de um prédio e de um penhasco. Na próxima estou pensando em pular de Bungee Jump.

-Ei, deixa ele falar! Você já teve a sua vez. Pronto, pode continuar de onde tinha parado. Olha, aqui não existe nome; isso é coisa de quem é vivo. Logo você se acostuma. Aquela foi a sua primeira vida, né? Como foi? Por que você pulou? Não sabe dizer? Era um conjunto? Se não quiser falar ou não se lembra, não tem problema: temos aqui um… Vamos chamar de vídeo por enquanto. Isso, de alguns momentos seus.

-Não, não é todo mundo que vai ver. Aqui todos acompanharam sua vida, a gente já sabe o que aconteceu. Ah, esses novatos! Alguém pode explicar para esse estúpido como funciona?

-Calma aí com esse seu temperamento, cara. Você sempre se ferra por causa dele! Enfim, deixa eu tentar explicar: conhecemos sua vida inteira e separamos seus piores momentos para ficarem passando na sua cabeça. Esperamos que aproveite e estaremos avaliando suas reações.

-Olha lá, a cara engraçada que ele está fazendo! Acho que daqui a pouco vai começar a chorar…

-Ih, já está chorando. Em qual parte será que ele está? Será que é na parte em que ele é abandonado pela família?

-Não, pela expressão dele deve ser quando ele bate no filho até a criança ir parar no hospital.

-Lembra quando ele matou a esposa por acidente? Soltando um rojão que explodiu em cima dela? Foi uma das melhores partes pra gente assistir!

-Agora acho que é a parte da clínica psiquiátrica, olha como ele segura a cabeça e se bate contra a parede… E como grita!

-Esquecemos de te contar que tudo o que você sentiu nesses momentos você vai sentir triplicado agora? Nossa, que indelicadeza não contarmos! Por favor nos perdoe, mas é que assim fica tão mais divertido…

-Está muito difícil de suportar? Não aguenta, é? Pois agora vem o grande final que é o seu último arrependimento. De verdade, com tantas formas para morrer, você tinha justo que escolher a única que te dá tempo o suficiente de desistir, mas que quando você desiste já não tem volta?

-Não aguentou e caiu? Não consegue levantar? Por que? Está muito pesado? Isso que você está sentindo é o peso de tudo o que você guardou para si mesmo, de toda culpa que você carregou sem se redimir e de tudo o que você remoeu sem perdoar. Devia ter se livrado disso enquanto ainda era vivo, agora aguente as consequências! Se arrepende? Ótimo: então carregue este fardo como forma de redenção! Depois que passar o tempo certo, você se juntará a nós, somará seu fardo ao nosso e poderá até tentar outra vida. Agora vá por aquele caminho e desaparece logo daqui!

-O próximo, por favor.
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Conto feito para a revista “Scenarium Plural”, disponível aqui

Delírios de uma canção 

Três e quinze da manhã. Minhas mãos estão frias, sinto o suor no rosto e ouço as batidas aceleradas do meu coração. Há dias tenho o mesmo sonho, porém cada vez mais são acrescentados detalhes e encontro dificuldade em acordar. A música hoje está mais forte na minha cabeça.

Sozinha no escuro, penso no sonho. Lembro de estar perdida na claridade e de um pássaro me guiando. Juntos alçamos voo e o ar logo se transformou em uma cela. O pássaro pousou na minha frente e, de costas para mim, foi possuído por uma neblina e assumiu a forma de um homem vestido de negro. Quem era? Tentei ver seu rosto, mas era apenas um vulto. Ele indicou uma direção e vi instrumentos jogados. Com um gesto, eles começaram a tocar uma música gentil, que ao mesmo tempo atraía e assustava. A canção era a mesma de sonhos anteriores. Não a conheço, mas é familiar. O que é ela? O que significa? Por que me possui e torna tão difícil meu despertar? Distraída com a música, o homem pegou meu pulso e começou a me arrastar em direção a um breu. Me debati e, após alguns minutos de desespero, acordei. Ainda estou assustada, mas sinto que logo adormecerei.

Estou acordada e assim quero ficar. Mesmo ontem não voltando a sonhar, tenho receio de dormir. A música ainda está na minha cabeça. Ela nunca ficou tanto tempo! O dia de hoje foi estranho, tantos gritos… Minha mente está confusa, e não sei o que é realidade e o que é ilusão. Não tenho sono, mas meus olhos pesam e minha visão está embaçada.

Sinto um perfume suave e estou em um barco. Na minha frente um homem, silencioso, me observa. Anoitece e vejo alguém sentado no meu quarto. Sou eu? É possível a alma separar-se assim do corpo? Um vulto sussurra meu nome. Por que meu corpo se levanta? Sigo a voz sedutora… Não! Estou sonhando? As luzes me absorvem e me levam a um corredor escuro. Vejo o homem pegar meu pulso e me guiar. Seu rosto de caveira é indecifrável e nossos passos se misturam como em uma dança. Quero fugir, meu corpo não obedece. Grito, mas não escuto.

A música começa e pela primeira vez não está na minha cabeça, está em meus ouvidos. É como se saísse de mim. Ao som dos violinos, ela é mais bela e assustadora do que nunca. Em minha hipnose, o homem me conduz. Não sei o que é realidade e o que é ilusão. Minha mente sente o perigo e se afasta, mas o corpo é atraído. Tento voltar para dentro de mim, mas a mesma canção que me guia parece me repulsar. Se sei que estou em uma armadilha, por que sorrio? Por mais que eu tente, não consigo acordar. Talvez eu nem esteja dormindo, não me lembro disso. Só lembro de estar sentada em meu quarto. Sinto-me presa em algum lugar fora de mim.

Escuto minha voz. Estou cantando? Mas o que estou cantando? Minha voz está mudando. Emito agora um som diferente, que nunca ouvi antes. Minha voz machuca. Como posso sentir tanta dor se estou fora do meu corpo? O homem (será homem mesmo?) aponta para mim e meu riso malicioso me assusta. Me confundo com ele, já não sei de mim. Por mais que eu queira me aproximar, não consigo. Meu rosto tem sangue, minhas mãos estão vermelhas e tenho marcas roxas no pescoço. Mesmo assim meu sorriso permanece.

Dor novamente! Vejo mais sangue. Me sinto invadida, humilhada. A dor não para e é insuportável. Tenho desejo de vingança! Mas me vingar do que? Quero fugir! Se meu corpo está em paz (será que está mesmo em paz?), por que me sinto assim? Não aguento! Existe uma saída daqui? Vejo uma luz nova e entro nela. Devo esquecer a caveira e o corpo. Preciso ser rápida. Minha mente mistura terror e medo. Sinto lâminas me cortarem, minha visão está vermelha, a canção tenta me confortar. Fujo, corro, mas estou no mesmo lugar. Vejo ainda a caveira e meu corpo. Estão iguais, imóveis, sorrindo um para o outro. Não veem que ambos estão em carne viva? Será que só eu sinto a dor? Estou cansada como nunca, como se tivesse passado horas, impotente, lutando contra algo. Sinto minha pouca respiração ofegante, sei que estou tremendo, mas meu corpo é impassível. A música me tortura. Como não percebi antes que eu canto a melodia que me acompanha todas as noites? Ainda tento fugir, sei que algo me persegue, mas não consigo ver. Correntes invisíveis me prendem. Meu desespero cresce, minha mente está se debatendo. Quero gritar, minha voz não sai, minha boca está abafada. Meu coração está apertado, sinto mais lâminas. Não tenho agilidade, corro sem sair da mesma posição. Meu peito está quente e minhas mãos frias. O suor escorre, minha garganta está seca, minha cabeça dói. A música parou. Estou chorando? Meu corpo soluça e se esconde nos braços da caveira. Meu desespero e minha tristeza se misturam. Levanto o rosto, ele está deformado pelos cortes e meus cabelos foram arrancados. A caveira me segura firme, tremendo. Tento me agarrar a ela, mas ela está se desfazendo. Estou caída no chão e minhas mãos seguram apenas pó. Olho para mim e peço socorro. Meus gritos me assustam, parece que estou morrendo. Meu choro inconsolável é infinito, meus olhos vermelhos transmitem um horror que jamais senti.

Minha garganta e meu coração formam um só nó e sei que estou sendo atacada. Tenho apenas duas mãos, sou escrava de mim mesma. Estou sozinha, só posso me apoiar em mim, porém não me alcanço. Meus braços estão estendidos, eu tento me abraçar, mas uma força me afasta. Meu rosto, agora pálido, mostra um medo que jamais pensei sentir. Não sei se respiro, só sinto uma invasão contínua. Os gritos de um animal sendo abatido me atordoam. Com dificuldade me levanto, a sala de espelhos reflete minha loucura. A música volta, e me faz bater a cabeça no vidro que se espalha pelo chão. Já não tenho sangue e a dor me cega.

Uma voz chama meu nome e eu me olho, como se implorasse para segui-la. Faço o que peço e sou guiada para fora da sala, onde meu corpo permanece desfalecido. Estou em um labirinto, a escuridão é minha amiga. Um pássaro voa alucinado na minha frente. Seu canto estridente machuca. Ele me leva para locais em que vejo cadáveres perdidos e ouço lamentos vindos do silêncio. As correntes arrastadas traduzem o que sinto. Minhas veias queimam, meu peito arde.

O pássaro é novamente possuído por uma neblina, mas não assume nenhuma forma definida. A névoa curva-se suavemente sobre o animal em constante mudança e o fogo dança ao meu redor. Suas chamas lambem minha mente e, facínoras, arrancam as lembranças de quem eu sou.

Não sei meu nome, como é meu rosto? Quem é o homem que me observa e sorri para mim? Ele sussurra um nome estranho. Devo segui-lo? Nossos passos se misturam como uma dança em um corredor escuro. Ele me domina e me sinto segura. Estamos em uma sala, o cálice foi virado, o êxtase transborda em meu corpo. O homem pega meu pulso, acaricia minha pele e me mostra uma luz familiar. Ele começa a cantar, o mais belo som que já ouvi. Acompanho-o, minha voz é de morte. Ele me beija palavras obscenas, me conta detalhes de um sonho perdido. Fala de vultos, instrumentos mágicos, celas e canções. Ele diz como se fosse uma profecia, mas não compreendo o significado. Seus olhos sombrios suplicam por minha confiança. Lágrimas surgem em meu rosto, tenho medo de algo desconhecido. Seu abraço é quente e conforta. Levanto a cabeça para fitá-lo. Sua face agora é de caveira e seu corpo se desfaz. Impotente, o pó escorre de minhas mãos.

Ao meu redor há apenas espelhos. De onde surgiram? Meu reflexo é deformado, sou mesmo assim? Minha cabeça lateja, a ressaca é mais forte quando não se lembra da embriaguez. Vejo aquela mesma luz que me foi mostrada anteriormente. Ela parece querer se aproximar, estendo meus braços, mas ela não vem. Acometida pela loucura, grito desesperadamente. Uma força estranha empurra minha cabeça contra o vidro. Escuto uma voz, sei que é ele, mas não encontro a saída. Com todas as minhas forças, imploro para a luz encontrá-lo.

Acordei. Não sei por quanto tempo estive desmaiada. Os espelhos que me rodeavam formaram uma caixa que me aprisiona. Me debato, meu socos voltam-se contra mim, quebro os vidros, meu corpo é sangue, mas não sinto dor. Os cacos refletem uma névoa que se curva sobre algo sem forma. O fogo me consome e me torna imaterial.

Vago sozinha por um breu e me vejo sendo conduzida pelo homem (será homem mesmo?) em direção a uma sala. Meus gritos são em vão, sei que o seguirei para onde ele me levar. Deixo minha visão e corro na direção contrária. Entro em um quarto escuro. Nele, há uma cama e um corpo nu. Ao lado, a arma de um crime violento. O incêndio queima os resquícios do desespero. A luta pela sobrevivência está em cada parte. Um vulto cobre o corpo e canta. A música, ao mesmo tempo em que atrai, assusta. A alma segue a voz, o barco dos mortos aguarda a partida.

As mulheres

Era um dia de calor e Beatriz usava um vestido. Na inocência dos 13 anos, decidiu pegar transporte público para voltar para casa. O horário era de pico e o ônibus estava lotado. Sem conseguir se mexer direito, ia em pé. Sentiu algo encostar em sua saia. Não se importou, afinal o ônibus estava cheio e era fácil que esbarrões acontecessem. Sentiu algo tocando por baixo de sua saia. Estranhou, tentou olhar ao redor, mas chegou à conclusão de que era mais um esbarrão. Começou então a sentir dedos passando por baixo de sua calcinha e apalpando seu bumbum. Empalideceu. Assustada, tentava olhar ao redor para descobrir quem era, sem saber ao certo o que fazer. O alívio veio quando um desconhecido a puxou para o canto a fim de protegê-la. Rígido, disse-lhe que “mocinhas não deveriam andar por aí com roupas curtas”. Beatriz pediu desculpas, dizendo que apenas estava com calor naquele dia. Chegou em casa e caiu em prantos quando se olhou, nua, no espelho antes de entrar no banho. Não conseguia entender a razão de alguém querer lhe apalpar e nem o porquê de seu vestido ter sido o causador de tudo aquilo. Passou a ter vergonha do ocorrido e a guardar o segredo para si. Desenvolveu pânico de locais muito cheios e aposentou, por alguns anos, o uso de vestidos enquanto estivesse sozinha.

Natália estava feliz: havia passado em um processo seletivo para desenvolver uma ação social num projeto de grupo no interior de seus estado. Começou a adicionar seus colegas no facebook. Nessa, adicionou por acidente um desconhecido que, em alguns dias, começou a enviar-lhe mensagens. Deixou claro que sabia em que projeto ela estava atuando, em qual cidade e o local onde ela estava hospedada. Ela viu que o perfil era falso e que a única postagem era um pedido de pornografia pelo WhatsApp. Sentindo-se vulnerável e exposta, pediu para que o projeto e as pessoas evitassem marcá-la em publicações que indicassem o local em que ela estava durante o período de realização de seu trabalho. Recebeu risos como resposta ao seu exagero. Se arrependeu por ter se rebelado com tal situação e resolveu ficar quieta após ser elucidada sobre como o pobre homem provavelmente apenas queria falar com ela, sem segundas intenções. Afinal, como julgar alguém que ela nem conhecia e que somente tinha mandado algumas mensagens inocentes?

O sonho de Ana Carolina era cantar em musicais. Aos 14 anos, fazia aula de canto enquanto sua irmã mais nova, Raquel, estudava violão na mesma escola e horário. Recentemente, Raquel havia mudado de professor. O novo professor aparentava cerca de quarenta anos e era relativamente estranho em seu modo de agir: gostava de abordar Ana Carolina em locais isolados para cumprimentar e ter conversas superficiais. Ana começou a estranhar tais atitudes. Em determinado momento, o professor passou a beijar-lhe sugestivamente o rosto enquanto a cumprimentava. Com o tempo, ele passou a acrescentar carícias nojentas ao rosto de Ana, enquanto asquerosamente dizia o quanto ela era bonita. Ela sentia que tinha algo errado nisso, mas não falava com ninguém sobre e, quando falava, respondiam o que já estava em sua cabeça: “deve ser impressão sua”. Não abordava o assunto com ninguém da escola com medo de o professor fazer algo com sua irmã, que passava uma hora por semana com ele aprendendo a tocar violão. No ano seguinte, Isabela, uma amiga de Ana, passou a ter aulas de canto com tal professor. Logo foi percebendo as investidas dele e as amigas começaram a confidenciar o medo reprimido que alimentavam toda vez que o viam. O odiavam! Mas, bem-educadas como eram, não conseguiam ser rudes com o professor, que revertia a situação, fazendo-se de vítima por não ser correspondido pelas meninas. O abuso psicológico era insuportável! As duas saíram da escola de música, mas sem deixar de sofrer com as iniciativas pedófilas do professor, que conseguiu o telefone de Isabela e tentou convencê-la a aceitar que ele fosse em sua casa para aulas particulares. Também quando, por acidente encontrou Ana, que saia do colégio, na rua, e tentou pedir-lhe o telefone para combinar de sair um dia. As amigas desenvolveram o temor de encontrá-lo, chegando a atravessar a rua ao avistar alguém que pudesse ser ele. Anos mais tarde, Ana assimilaria toda a história, percebendo a gravidade dela e o quanto o professor aproveitou-se de sua insegurança e da dificuldade socialmente impostas às mulheres em dizer não. Sabe que suas cicatrizes não são físicas, mas elas doem e se manifestam até hoje.

Michele foi na casa de uma amiga que fazia aniversário. No ambiente informal e familiar, bebia, sabendo sempre seu limite, enquanto assistia aos homens jogando baralho. Acostumada a jogar desde a infância, entrou na partida seguinte. Teve a audácia de jogar e de se sentar igual a um homem. Foi julgada por seu comportamento masculino e vulgar. Ficou brava e até quis protestar em relação ao julgamento, tentando se justificar, mas depois achou melhor ficar quieta em relação ao assunto. Pensou que era melhor se recatar um pouco, afinal, um dos homens já estava se tornando invasivo com ela e as pessoas estavam muito distraídas com seu comportamento rebelde para perceber isso. Internamente, riu da situação ao pensar em como a cena do julgamento teria ficado muito melhor se ela estivesse fumando também.

Daniela andava na rua. Andava para ir para a escola, voltar para casa, pegar o ônibus, ir para o parque, ir para o shopping; apenas andava na rua. Desde que Daniela entrou na adolescência e começou a andar sozinha, passou a sentir olhares e a ouvir algumas palavras grosseiras. Falaram para ela que isso era normal e que era elogio, Daniela acreditou. Mas quando começou a se intimidar com algumas coisas e foi desabafar, escutou que sua roupa era muito curta, ou que seu uniforme de colégio de freira era provocante demais. Continuou andando. Um dia, um homem lhe perguntou as horas. Simpática, ela respondeu não saber. Atravessaram a rua e ele começou a querer conversar. Mudaram de quadra e ele a puxou para um canto escuro, a segurou à força e começou a beijar seu pescoço agressivamente. Daniela, num ímpeto de frieza, o empurrou e correu para onde tinha uma multidão. Entrou num táxi, tremendo e chorando. Quando contou para alguém sobre o ocorrido, perguntaram que roupa ela estava usando. Nos dias seguintes, Daniela continuou andando. E andando, sofreu vários outros assédios iguais ao que já estava acostumada. Independente de sua roupa e horário, sofria assédio. Uma vez, um homem a parou na rua para mostrar uma foto de seu pênis. Em outra, um homem pediu simplesmente para transar com ela. Se respondesse sem corresponder, sofria risco de agressão. Se ignorasse, era xingada. Aos olhos de alguns, é sempre ela que provoca com sua forma de agir, com suas calças, shorts, vestidos, blusas de mangas cumpridas ou curtas, com ou sem decote, seja de manhã, de tarde ou de noite. Talvez Daniela seja irresistível mesmo. Ou talvez seja tão feia, que deve agradecer aos homens que, em momentos de esforços altruístas, a elogiam só para tentar fazer com que sua auto estima aumente. Há também uma remota possibilidade de ela ser vítima desses homens, que não fazem ideia do quanto a incomodam e a intimidam.

Beatriz, Natália, Ana Carolina, Michele e Daniela estão separaras no espaço e tempo, mas se convergem em uma só. Como se houvesse algum mérito em ser mulher, dia 8 de março, as cinco receberam flores e parabéns. Naquele dia, todos ressaltaram a delicadeza e fragilidade feminina, a opressão ignorou o incêndio que tentou calar a voz manifestante. Por um dia, ser mulher pareceu a melhor coisa do mundo. Dia 8 de março, Beatriz, Natalia, Ana Carolina, Michele e Daniela ganharam flores e poemas daqueles que as julgaram, amenizaram seus temores e as consideraram loucas. E se retribuíram o gesto com um sorriso amarelo, era TPM.

Hakuna Matata

Bruna e Elisa eram duas universitárias perdidas na vida que foram juntas para Moçambique em um intercâmbio estudantil. Entusiasmadas com a ida à África, cantavam no avião “Waka Waka”, como se a música representasse o continente de alguma forma. No período de espera da conexão entre Johanesburgo e Maputo, decidiram que em nenhum momento deixariam claro para os outros que eram turistas. Concluíram a missão com sucesso enquanto tiravam uma foto com o elefante da Amarula e consumiam um pacote de batatinha Simba.

Chegaram ao destino final e foram carinhosamente recebidas por um aeroporto cor-de-rosa e sorrisos da publicidade da MCEL. A euforia das duas logo foi cortada ao caírem no golpe de um suposto funcionário do aeroporto, perderem 20 dólares e 10 reais e descobrirem que ninguém da universidade as esperava lá. Perdidas, assustadas e abandonadas, levaram cerca de uma hora até encontrar uma lista telefônica e uma alma bondosa que emprestasse o celular.

Fizeram uma ligação. Foram atendidas por uma voz confusa que se surpreendeu ao saber que seu número estava na lista. Fizeram uma segunda ligação. Na terceira, foram bem sucedidas e receberam a informação de que o motorista estava ocupado dirigindo para alguém mais importante que elas e foram instruídas a pegar um táxi e, com suas malas de trinta quilos cada, irem até a reitoria da universidade.

Já no táxi, pensaram que tudo havia se acertado. Até que uma policial mandou o carro encostar e o taxista começou a correr desesperado, observando pelo retrovisor se estava sendo seguido. Bruna empalideceu e ficou nervosa pensando no que aconteceria depois da fuga do motorista, que se justificava dizendo que a polícia o havia mandado encostar sem razão. Enquanto isso, Elisa, decidida a deixar os astros escolherem seu destino, ria da amiga e a mandava sorrir para uma foto. Passado o susto, chegaram vivas e inteiras na reitoria.

Em seguida, foram levadas ao carro oficial da universidade, afinal o motorista não estava mais ocupado com alguém importante, e seguiram rumo ao alojamento em que ficariam. Chegando no prédio, pegaram suas pesadas malas e foram em direção ao elevador, desativado fazia alguns anos.

Se deram conta de que, após enfrentar cerca de nove horas de viagem e ainda sem almoçar, teriam que subir as escadas com suas malas. Perguntaram até que andar iriam e receberam um sorriso como resposta. Começaram a subir. Subiram mais. O alojamento era masculino e dezenas de homens passavam por elas soltando cantadas toscas, mas incapazes de oferecer ajuda. E elas continuaram subindo. Quando chegaram no 12º e último andar, entraram num apartamento e foram recebidas por brasileiras que lhes entregavam canecas com água. Nem conseguiram contar quantas eram ou visualizar seus rostos, tamanhos o cansaço e sede que sentiam.

Entraram juntas no quarto que receberam, ajeitaram suas coisas nele e decidiram tomar banho. No meio do caminho, encontraram um mexicano aleatório que as informou que não havia sistema de aquecimento de água nos chuveiros e questionou a razão de seu número estar numa lista telefônica moçambicana. Elas não souberam responder.

Tomaram banho, dormiram e, às quatro da tarde, desceram para finalmente almoçar. Comeram chouriço com batata frita e coca-cola de garrafa de vidro. Subiram de volta e foram até a sacada do quarto. Olharam para a cidade, tão bagunçada, bela e cheia de ritmo. Suspiraram. Aqueles quatro meses em Moçambique prometiam!