Passageiro

-É passageiro- me disse um baiano

Ou era Preto Velho?

Mas -é passageiro-, ele disse…

e que há um futuro de luz

 

– Por que não vai atrás?-

Esse era baiano, certeza

– Ou então procure outros-

mas por que não ir atrás?

 

Marinheiro alertou:

-Você entrega seu coração fácil demais,

hora de aprender a ser racional.

Rodou? Vai vomitar!-

 

E desci do barco

senti as ondas e fiquei mareada

não sei se segui

em água, terra ou ar

 

Mas o  barco afundando

e eu tentando remar

do lado de fora

e o marinheiro indo embora

 

E é passageiro,

sempre foi

Ou passageira sou eu?

Sempre fui?

 

Ou a dor…

 

Mas o barco afundando

e eu atrás da passagem

e a luz surgindo ao horizonte

e o passageiro indo embora

 

E eu rodando

e o passageiro sumindo

e a luz surgindo ao horizonte

E a dor? Ah!

 

-O sufoco é passageiro- me disse um baiano

Ou era Preto Velho?

Mas -é passageiro-, ele disse…

e que há um futuro de luz

 

Mas o barco afundando

e o passageiro…

Confundi a embarcação!

Onde estou?

 

Marinheiro alertou:

-Não se faça, sua mão sempre foi beijada,

amadureça

aqui nunca se falou de amor!-

 

E me lanço ao mar

escolho um barco

Passageiro

E a luz surgindo ao horizonte

Por que não ir atrás?

 

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Sinto tua energia

me perseguindo

novamente

 

Ressurges

em meus gestos,

sonhos e versos

 

Tua presença

distante

me rodeia e assombra

 

O que deixaste em mim

que insiste

em te trazer de volta?

 

Minha língua trava

para não soltar teu nome

pendurado nela

 

Lembro de ti

tão só, tão desesperado,

tão perdido

 

E aqui estou eu mais uma vez

diante de teus abismos

ressentindo a vertigem

 

Peças-me perdão

e o concederei sem pestanejar

¡Mas tire de mim o peso da pena!

 

Me ajude a nos libertar de nós mesmos:

juntos nada mais poderíamos ser

além de veneno e ácido

¡permita-nos viver!

Coreografia

Quando a vida cala o canto

ainda resta a dança

para expressar a música

 

E de passo em passo

o baile se forma

as almas se encontram

 

Dançando

tudo é assim,

suave e intenso

 

A dança combina

com minha forma de amar:

profunda e limitada

ao tempo de uma canção

Tempestade

Ondas vão e vêm

batem nas rochas

pousam na areia

 

Quanto dura uma tempestade?

 

Vento soprando

várias direções

mar agitado

 

Tempestade passa ou descansa?

 

Águas livres, nômades

doce sal

sol ardente

 

Como não navegar pela tempestade fresca?

Amanhecer

Não quero mais a noite!

Quero a luz, quero o calor

chega de me esconder entre

fantasmas

 

Será este

o momento de responder

aos desejos do meu coração,

que tanto anseia amar e

teme o amor?

 

Este mesmo coração

cigano

que insiste em se prender

onde as amarras são fracas

e as raízes, falhas

Vidência

-Conte-nos o futuro! 

o que acontecerá? 

Perderemos sonhos 

protegendo a vida? 

Perdoaremos homicídios 

esquecendo suicídios? 

Curaremos doenças 

com tempo de rezar? 

Moraremos no deserto 

para nos salvar? 

 

-Protegeremos sonhos 

esquecendo a vida. 

Perdoaremos suicídios 

antes de homicídios. 

Rezaremos 

curando doenças. 

Moraremos no deserto, 

sem esquecer 

que a neve noturna 

é a água da manhã.

Ciclo

Um dia é só mais um dia

tempo se esvai

sem perceber

 

Fases mudam

sempre igual:

vivo em eterna lua cheia!

 

Mesmas músicas

olhares, locais

melancolia preenche

 

Estações seguem?

Trem parado, inverno

graveto segura avalanche

 

Baratas se alimentam

restos soterrados na neve

mais uma ex-perança

 

 

Questionamentos

Quantas vezes uma alma pode ser rompida?

Com quantos toques não permitidos um corpo se parte?

São quantos os pedaços arrancados até um coração parar de chorar?

Em até quantos cortes uma pessoa pode ser divida?

Depois de quanto tempo a carne exposta começa a apodrecer?

Quantos lances determinam a carniça mais barata?

Quantas palavras são necessárias para destruir alguém?

Como salvar quem já se perdeu?