Dez segundos

Dez segundos para me amar

Dez segundos deixarei

Veja bem:

Nesta louca história,

O samba sou eu

 

Dez segundos de paz

Dez segundos de vigor

Como é estranha a vida:

O médico vira monstro

E o homem é um inseto

 

Dez segundos para sentir,

Dez segundos para morrer

Pense novamente:

Se o bem faz o mau,

O mal faz bem?

 

Dez segundos,

Hamlet vira Julieta

 

Dez segundos,

O pesadelo acaba

 

Dez segundos,

Tudo termina

 

Dez segundos,

É o recomeço

Queda

 

Mergulhar em ti

seria um erro prazeroso

Tua psico, tão densa e profunda,

me absorveria até a perdição

 

A soma fatal de nossos abismos

atração magnética, hipnótica

Sou uma bela presa aproximando-se de minha fera

 

Mas os desejos da carne, irrequietos,

repelem e puxam

longe da tua profundidade,

prisão dos meus instintos

 

Quando os pensamentos incapacitados

pela névoa do precipício ficam,

os desejos infiéis do corpo

saltam à mente, orgulhosa,

a necessidade de viver

 

São eles, conscientes dos

abusos da perdição,

os que se manifestam

fazem acordar a racionalidade

como lançassem corda para a liberdade

e indicassem fuga

Tolices 

Tola fui eu que acreditei

em seus gestos românticos

Tola fui eu que te atendi

em minha casa de madrugada

Tola fui eu que não pensei

ser sua última opção

Tola fui eu que escutei

suas palavras bêbadas

Tola fui eu que rendi

meu corpo a seus beijos

Tola fui eu que ri

do seu charme desajeitado

Tola fui eu que bati

a porta quando você foi embora

Tola fui eu que engoli

as palavras que separei para você

Tola fui eu que dormi

quando você cantou

Tola fui eu que te procurei

durante o sono

Tola fui eu que esperei

por conversas que não existiram

Tola fui eu que me libertei

na sua falsa intensidade

Tola fui eu que não limitei

a velocidade de qualquer sentimento

Tola fui eu que te chamei

enquanto delirava perdida

Tola fui eu que escrevi

diálogos vazios para brigar com você

Tola fui eu que não consegui

te rejeitar quando mais quis

Tola fui eu que derramei

lágrimas pela sua indiferença

Tola fui eu que me entreguei

e continuei a me sentir só

Tola fui eu que mantive

o silêncio diante de seus pequenos abusos

Tola fui eu que defendi

suas intenções turvas

Tola fui eu que desviei

o olhar em sua presença

Tola fui eu que permiti

algumas humilhações

Tola fui eu que carreguei

a esperança de estar errada

Tola fui eu que deixei

de sentir sem te esquecer

     

Mas mais tolo foi você que fugiu

covardemente por aí

Mais tolo foi você que se escondeu

em conversas incompletas

Mais tolo foi você que voltou

em busca de meus braços

Mais tolo foi você que foi

novamente embora sem ficar para a despedida

Mais tolo foi você que desistiu

através de um silêncio autoritário

Mais tolo foi você que insistiu

em não começar nem terminar

Mais tolo foi você que ignorou

que não podemos nos evitar

Mais tolo foi você que esqueceu

como fui sua por alguns dias

Mais tolo foi você que se esforçou

para me conquistar sem me querer

Mais tolo foi você que se perdeu

no seu próprio jogo

Mais tolo foi você que me fez

deixar de sentir sem te esquecer

Desabafo

O que aconteceu?

É começo de abril e já parece inverno! Que páscoa tão amarga esta… E serão oito anos até a próxima primavera, mas que primavera fria será!

Não vi a corda estendida e o corpo pendurado no quarto ao lado, mas senti cada sufoco, até acabar o ar. E por que? Por que dói tanto, mesmo sabendo que a dor já passou?

E fantasmas que não existem mais, voltam a me perseguir. É a sua voz que carrego cada vez que eu canto, a cada pranto. E seus olhos, um de cada cor, já se perderam para os vermes há tanto tempo!

Não fui em nenhum de seus enterros, posso me perdoar algum dia? A terra fria e a carne podre não são o abrigo que eu queria em você.

E veja: apesar de o tempo estar quase parado para mim, hoje já é verão. Ainda um pouco frio, sem muitas cores. Mas mesmo assim, verão!

Intocáveis

É noite,

nossa hora de sair

não queremos luz

Deixamos a escuridão nos absorver

 

Somos nossa própria companhia

Não consegue entender?

Não precisamos de mais ninguém;

sabemos nos divertir sozinhas

 

Desfilamos com nossas bocas cor de morte

nossas roupas de fogo

envoltas numa aura de irreverência

 

Não nos damos bem com

convenções sociais

Vivemos nosso mundo

Independentes

Carta de decepção

Mais uma vez:

quem foi que falou de amor?

Mas se for para falar…

    

Quem ama deixa, você disse?

Se quer realmente falar de amor,

não caio mais nessa

pois quem ama, não brinca

e você parece ter certeza de que sou criança

      

Não quis me relacionar,

não quis me envolver

Mas você quebrou minhas barreiras

mero capricho, talvez?

Querido, não precisava disso

      

Odeia cobranças?

Odeio conversas sem caminho

Odeio silêncio e meias palavras injustificadas

Não lembro de ter te cobrado

pedir foi demais para você?

Ou a intensidade da juventude que te assusta?

        

No fim, tudo se torna poesia

e é só mais uma ressaca;

o corpo se acostuma

Não pense que existe espera

pois para os sentimentos, não há voltas

       

-Minha estrada não tem placa de retorno-

Já disse isso uma vez

Esqueceu de ouvir?

Agora repito, rindo irônica, para você

        

Se servir de conselho,

aproveite que ainda não passaram os desvios

Só que a estrada está mais esburacada, aviso

e algumas palavras bonitas

não serão suficiente para consertá-la

Cartinha apaixonada

O que é isso que

me faz só querer pensar

em me perder em você?

 

Será que é sua voz, que me esquenta,

seu toque, que me enlouquece?

Nem sei quem sou mais

 

E você vai desmoronando

todas minhas barreiras

O que mais vai fazer comigo?

 

Acho que estou viciada

em seu corpo, seu jeito

Nem sei para onde isso vai me levar…

Inferno ou paraíso?

Já não me importa mais

 

Pois este seu cheiro inebriante de cigarro,

seu charme andarilho,

me fazem querer deixar

às cartas e aos astros

as escolhas sobre meu destino