Carta de consolo 

Quem está aí,

atrás dessa porta, se lamentando?

Ah, é você!

A vida tem sido dura, não?

Mas tudo bem estar assim, sua fragilidade também é força

e ser forte é também saber aceitar ajuda

Não se preocupe com o que escorre de seu rosto neste momento

a pele morna vai te confortar em breve

    

Você pode até se zangar e não entender

mas mesmo que não queira, estarei ao seu lado para lutar

por e com você 

É difícil, eu sei

já vivi ofuscada por essa escuridão 

já estive prestes a desistir também 

Mas aprendi, nos momentos difíceis, que não estou sozinha 

E quero que saiba: você também não está!

   

Então chore, mesmo que seja pouco 

Guardar essas lágrimas só vai te empurrar para um precipício 

Chore, pois há dias mais cinzas que outros

são nesses que você precisa se livrar da sua dor

Só assim conseguirá entender:

a vida é feita do pranto necessário

para que se possa reaprender a sorrir a cada dia

e valorizar todas as cores

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Cartinha desapaixonada

O que foi isso que

me fez só pensar

em te esquecer?

 

Acho que foi a falta da sua voz, mesmo ríspida,

ou sua ausência insuportável, que me partiu

Nem sei mais quanto chorei

 

E você foi desmoronando

todas minhas barreiras

Este poema foi só mais uma promessa que quebrei

 

Acho que me perdi apaixonada

em seu corpo, seu jeito

Nem sei para onde isso me levou…

Do paraíso ao inferno?

Já não me importa mais

 

Pois quando você veio atrás, eu tinha seguido em frente

agora fique com seu Chico Buarque,

entregue-o talvez para quem você já dedica Pablo Neruda

Saiba que as cartas e os astros

deixaram meu destino livre para o que eu escolher

Questionamentos

Quantas vezes uma alma pode ser rompida?

Com quantos toques não permitidos um corpo se parte?

São quantos os pedaços arrancados até um coração parar de chorar?

Em até quantos cortes uma pessoa pode ser divida?

Depois de quanto tempo a carne exposta começa a apodrecer?

Quantos lances determinam a carniça mais barata?

Quantas palavras são necessárias para destruir alguém?

Como salvar quem já se perdeu?

Você 

  

Você trouxe meu sorriso

e o levou embora

aprendi a sorrir sozinha

   

Você entrou sem precisar bater 

e saiu silencioso

sem eu perceber a movimentação    

   

Você me bagunçou

e foram apenas alguns dias

estou voltando a me organizar

   

Você me fez fechar minhas portas

e enferrujar as dobradiças 

agora controlo qualquer passagem

  

Você me trouxe a cólera 

e eu me perdi no vinho

assim meu coração amanheceu em paz

   

Você apareceu com palavras bonitas

e se ocupou demais para conversas

mas o silêncio só sabe destruir

   

Você já tinha desistido 

e eu também 

tentei deixar o gosto menos amargo

      

Você preferiu fugir 

e nada resolver

nos limitamos a ignorar o que aconteceu

     

Você me fez odiar Chico Buarque

e seus romantismos

me encontrei em novos artistas

   

Você restaurou minha confiança 

e levou um pouquinho 

estou cultivando o que restou 

  

Você veio no meio de uma tempestade

e me fez bem

só quis terminar sem rancores

   

Você foi um sonho bom

e acordei repentinamente

não tentei mais dormir

    

Você me inspirou poesias

e esta é a última que escrevo

não há mais espaço em mim para você 

Ocaso

 

Meu corpo está frio

Tão frio!

Meu coração não bate

Já não bate

 

Que ecos são esses na minha mente?

Não, não quero morrer mais uma vez!

 

Minha respiração hoje falha 

Minhas pernas sucumbem 

Minha voz desaparece

 

Até quando conseguirei sentir algo?

Minha própria indiferença me apavora

   

Não, não vou mergulhar nessa escuridão de novo!

Mas que forças ainda tenho para lutar?

 

E ela está sempre me rodeando

esperando um sinal de fraqueza

Já ordenei que fosse embora!

    

Mas não, ela não vai voltar!

Mesmo se eu estiver fraca, vou resistir

Ela não conseguirá mais me controlar!

Partida

Fecho os olhos e escuto o som do mar. O sol se põe em breve, o cheiro da maresia me inebria. Há um pequeno rato brincando entre os barcos jogados na areia… Inocente, parece não saber o asco que causa nas pessoas. Mas perto do mar ele guarda certo encanto enquanto corre na praia. A vista para o morro é ainda mais bonita durante os últimos raios solares; cada casa irregular carrega um pouco de charme consigo.

O sol já se pôs, está tudo escuro e as estrelas, tímidas, começam a aparecer. Sento nas pedras, pois o mar me chama. Sinto-o com toda sua força chegando perto de mim, implorando para eu ir ao seu encontro. Me rendo e coloco os pés na água, que acaricia minhas pernas e convida a entrar mais. A cada onda me sinto mais leve e as energias negativas se dissipam.

Caminho então em direção ao horizonte. Vejo pouco; está escuro e uma chuva fraca ofusca as estrelas. Não ligo, gosto do sabor que tem quando a água doce e a salgada se misturam em minha pele.

Meu corpo pede para que eu mergulhe e fique entre as ondas no meio da noite. A embriaguez da madrugada me faz ceder aos meus próprios caprichos. Enquanto afundo, todas minhas dores vão embora. Sinto uma febre, que eu não sabia ter, cessar. Não consigo mais sair daqui, cada parte minha se perdeu em prazer em meio à espuma. Já decidi: fico! Fico até que seja eu mais uma parte do mar.

Dez segundos

Dez segundos para me amar

Dez segundos deixarei

Veja bem:

Nesta louca história,

O samba sou eu

 

Dez segundos de paz

Dez segundos de vigor

Como é estranha a vida:

O médico vira monstro

E o homem é um inseto

 

Dez segundos para sentir,

Dez segundos para morrer

Pense novamente:

Se o bem faz o mau,

O mal faz bem?

 

Dez segundos,

Hamlet vira Julieta

 

Dez segundos,

O pesadelo acaba

 

Dez segundos,

Tudo termina

 

Dez segundos,

É o recomeço

Queda

 

Mergulhar em ti

seria um erro prazeroso

Tua psico, tão densa e profunda,

me absorveria até a perdição

 

A soma fatal de nossos abismos

atração magnética, hipnótica

Sou uma bela presa aproximando-se de minha fera

 

Mas os desejos da carne, irrequietos,

repelem e puxam

longe da tua profundidade,

prisão dos meus instintos

 

Quando os pensamentos incapacitados

pela névoa do precipício ficam,

os desejos infiéis do corpo

saltam à mente, orgulhosa,

a necessidade de viver

 

São eles, conscientes dos

abusos da perdição,

os que se manifestam

fazem acordar a racionalidade

como lançassem corda para a liberdade

e indicassem fuga