Queda

 

Mergulhar em ti

seria um erro prazeroso

Tua psico, tão densa e profunda,

me absorveria até a perdição

 

A soma fatal de nossos abismos

atração magnética, hipnótica

Sou uma bela presa aproximando-se de minha fera

 

Mas os desejos da carne, irrequietos,

repelem e puxam

longe da tua profundidade,

prisão dos meus instintos

 

Quando os pensamentos incapacitados

pela névoa do precipício ficam,

os desejos infiéis do corpo

saltam à mente, orgulhosa,

a necessidade de viver

 

São eles, conscientes dos

abusos da perdição,

os que se manifestam

fazem acordar a racionalidade

como lançassem corda para a liberdade

e indicassem fuga

Tolices 

Tola fui eu que acreditei

em seus gestos românticos

Tola fui eu que te atendi

em minha casa de madrugada

Tola fui eu que não pensei

ser sua última opção

Tola fui eu que escutei

suas palavras bêbadas

Tola fui eu que rendi

meu corpo a seus beijos

Tola fui eu que ri

do seu charme desajeitado

Tola fui eu que bati

a porta quando você foi embora

Tola fui eu que engoli

as palavras que separei para você

Tola fui eu que dormi

quando você cantou

Tola fui eu que te procurei

durante o sono

Tola fui eu que esperei

por conversas que não existiram

Tola fui eu que me libertei

na sua falsa intensidade

Tola fui eu que não limitei

a velocidade de qualquer sentimento

Tola fui eu que te chamei

enquanto delirava perdida

Tola fui eu que escrevi

diálogos vazios para brigar com você

Tola fui eu que não consegui

te rejeitar quando mais quis

Tola fui eu que derramei

lágrimas pela sua indiferença

Tola fui eu que me entreguei

e continuei a me sentir só

Tola fui eu que mantive

o silêncio diante de seus pequenos abusos

Tola fui eu que defendi

suas intenções turvas

Tola fui eu que desviei

o olhar em sua presença

Tola fui eu que permiti

algumas humilhações

Tola fui eu que carreguei

a esperança de estar errada

Tola fui eu que deixei

de sentir sem te esquecer

     

Mas mais tolo foi você que fugiu

covardemente por aí

Mais tolo foi você que se escondeu

em conversas incompletas

Mais tolo foi você que voltou

em busca de meus braços

Mais tolo foi você que foi

novamente embora sem ficar para a despedida

Mais tolo foi você que desistiu

através de um silêncio autoritário

Mais tolo foi você que insistiu

em não começar nem terminar

Mais tolo foi você que ignorou

que não podemos nos evitar

Mais tolo foi você que esqueceu

como fui sua por alguns dias

Mais tolo foi você que se esforçou

para me conquistar sem me querer

Mais tolo foi você que se perdeu

no seu próprio jogo

Mais tolo foi você que me fez

deixar de sentir sem te esquecer

Desabafo

O que aconteceu?

É começo de abril e já parece inverno! Que páscoa tão amarga esta… E serão oito anos até a próxima primavera, mas que primavera fria será!

Não vi a corda estendida e o corpo pendurado no quarto ao lado, mas senti cada sufoco, até acabar o ar. E por que? Por que dói tanto, mesmo sabendo que a dor já passou?

E fantasmas que não existem mais, voltam a me perseguir. É a sua voz que carrego cada vez que eu canto, a cada pranto. E seus olhos, um de cada cor, já se perderam para os vermes há tanto tempo!

Não fui em nenhum de seus enterros, posso me perdoar algum dia? A terra fria e a carne podre não são o abrigo que eu queria em você.

E veja: apesar de o tempo estar quase parado para mim, hoje já é verão. Ainda um pouco frio, sem muitas cores. Mas mesmo assim, verão!

Intocáveis

É noite,

nossa hora de sair

não queremos luz

Deixamos a escuridão nos absorver

 

Somos nossa própria companhia

Não consegue entender?

Não precisamos de mais ninguém;

sabemos nos divertir sozinhas

 

Desfilamos com nossas bocas cor de morte

nossas roupas de fogo

envoltas numa aura de irreverência

 

Não nos damos bem com

convenções sociais

Vivemos nosso mundo

Independentes

Carta de decepção

Mais uma vez:

quem foi que falou de amor?

Mas se for para falar…

    

Quem ama deixa, você disse?

Se quer realmente falar de amor,

não caio mais nessa

pois quem ama, não brinca

e você parece ter certeza de que sou criança

      

Não quis me relacionar,

não quis me envolver

Mas você quebrou minhas barreiras

mero capricho, talvez?

Querido, não precisava disso

      

Odeia cobranças?

Odeio conversas sem caminho

Odeio silêncio e meias palavras injustificadas

Não lembro de ter te cobrado

pedir foi demais para você?

Ou a intensidade da juventude que te assusta?

        

No fim, tudo se torna poesia

e é só mais uma ressaca;

o corpo se acostuma

Não pense que existe espera

pois para os sentimentos, não há voltas

       

-Minha estrada não tem placa de retorno-

Já disse isso uma vez

Esqueceu de ouvir?

Agora repito, rindo irônica, para você

        

Se servir de conselho,

aproveite que ainda não passaram os desvios

Só que a estrada está mais esburacada, aviso

e algumas palavras bonitas

não serão suficiente para consertá-la

Cartinha apaixonada

O que é isso que

me faz só querer pensar

em me perder em você?

 

Será que é sua voz, que me esquenta,

seu toque, que me enlouquece?

Nem sei quem sou mais

 

E você vai desmoronando

todas minhas barreiras

O que mais vai fazer comigo?

 

Acho que estou viciada

em seu corpo, seu jeito

Nem sei para onde isso vai me levar…

Inferno ou paraíso?

Já não me importa mais

 

Pois este seu cheiro inebriante de cigarro,

seu charme andarilho,

me fazem querer deixar

às cartas e aos astros

as escolhas sobre meu destino

Carta feminina

 

Meu corpo foi tirado

mais uma vez

de mim

 

Quem o entregou?

 

Não quero essas mãos,

não quero essas bocas,

não quero essas palavras

 

ME DEIXEM!

 

Quero ser minha

só minha

Dona de mim

 

Mas vocês me DILACERAM

a cada toque não permitido

 

Por que tenho tanto medo?

 

E só fujo

fujo, me escondo

em mim, me tranco

 

BASTA!

 

Preciso respirar,

tirem essas correntes de mim!

Manu e a bicicleta

Manu estava em fase de experiência de seu primeiro emprego. Andando, era meia hora de caminhada de sua casa até o trabalho. Era uma caminhada tranquila, com exceção do calor típico de mais de 30°C que fazia em sua cidade quase o ano inteiro. No primeiro dia de caminhada após o almoço, Manu passou mal. Nos outros dias, continuou passando mal.

Como não tinha habilitação e táxi era inviável, pensou em três alternativas: ônibus, patins ou uma bicicleta. Manu odiava andar de bicicleta: sempre preferiu andar de patins na infância e na adolescência. Por causa de problemas no joelho, também tinha recomendação médica de evitar exercícios tais como escadas e bicicletas. Só que patins não parecia ser uma boa alternativa, considerando a falta de calçadas e a quantidade exagerada de buracos que existiam nas ruas de sua cidade. Mas o sistema de transporte público lá também não era muito eficiente e os horários dos ônibus não atendiam suas necessidades. Manu decidiu então optar pela bicicleta.

Como já tinha começado a bater ponto na empresa, decidiu comprar a bicicleta contando com o salário que receberia no mês seguinte. Não resistiu e escolheu uma rosa, com cestinha. Pouco feliz com a compra, fez sua estreia como ciclista pedalando até um banco. De joelheira e evitando trajetos mais arriscados, sobreviveu à experiência! Dois dias depois, foi chamada no RH da empresa.

– Sentimos muito, a sede decidiu que não contrataria ninguém este ano. Culpa da crise, entende?

Manu, na chuva, pegou sua bicicleta nova e foi para casa. No caminho, parou para depositar o cheque com o valor equivalente aos dias em que havia batido ponto; a quantia pagava meia bicicleta. Por sorte, a outra metade pôde ser suprida com o pagamento de um serviço de panfletagem feito durante um fim de semana. Como também estava de TPM naquele dia, parou numa loja de doce para comprar chocolates e passou o resto do dia chorando por qualquer razão que aparecesse e comendo em seu apartamento.

Superado o momento, começou a se adaptar à bicicleta e a utiliza-la como meio de transporte no dia a dia para a faculdade e para onde mais precisasse ir. Um dia, pela manhã, foi tirar seu celular do carregador e notou, surpresa, que a bateria do aparelho estava inchada. Sabendo dos perigos de uma bateria inchada e tendo consciência de que seu celular barato comprado numa loja de esquina não tinha uma garantia segura, decidiu que iria comprar um novo aparelho num local mais confiável e em que fosse mais fácil de ser socorrida numa situação dessas. Mas antes de ir para a loja, passaria no hospital para pegar o resultado de alguns exames. Era início de tarde, foi de bicicleta e Manu colocou seu transporte junto ao portão do hospital e trancou o cadeado. Na saída, sua chave quebrou dentro dele. Não teve dúvidas: chamou sua amiga, pegaram sua caixa de ferramentas cor-de-rosa e foram as duas, uma e meia da tarde, no centro da cidade, arrombar o tal cadeado da bicicleta.

Passaram uns 30 minutos martelando o cadeado enquanto recebiam alguns olhares desconfiados de quem passava. Resolveram pedir para o segurança, que cuidava da entrada do hospital, alguma ferramenta que as pudesse ajudar a cortar o cadeado. Manu mostrou o pedaço de chave que havia restado em seu chaveiro e tentou explicar a situação da forma mais normal possível. Como o segurança chegou à conclusão de que as duas não tinham lá talento para serem ladras e provavelmente estavam dizendo a verdade, arranjou um alicate de corte e as amigas puderam seguir com a programação normal do dia.

Um tempo passou e Manu comprou um cadeado novo, com uma chave mais resistente. No mesmo dia em que comprou, foi para a faculdade. Como estava chovendo, voltou de carona e colocou no chaveiro as duas chaves que vinham com o cadeado. Chegou em casa, as chaves do cadeado haviam sumido. Incrédula, Manu passou uma semana procurando pelas chaves enquanto sua bicicleta repousava na faculdade. Quando cansou de procurar, pegou uma lima emprestada, se juntou com três colegas e o guarda da faculdade e arrombaram o segundo cadeado da bicicleta. A recém-formada gangue comemorou o pequeno crime e Manu recuperou seu meio de transporte. Misteriosamente e como a vida gosta de um pouco de humor, no dia seguinte as chaves apareceram em sua caixa de correio.

O terceiro cadeado comprado por Manu, já foi planejado para ter a chave forte e, em última instância, ser fácil de arrombar. Assim que comprou o cadeado, Manu chegou em casa e colocou uma das chaves em seu esconderijo secreto onde guardava seus bens mais preciosos. Foi sua salvação, pois a chave que estava em seu chaveiro resolveu, num lindo dia, desaparecer sem maiores explicações. O caso nunca seria resolvido, mas a chave reserva continuou ali, reluzente e bela no chaveiro de Manu.

Passada a fase de problemas com chaves e cadeados, Manu e sua bicicleta passaram por vários momentos juntas. Em um deles, sofreram um assalto, o primeiro de ambas, a mão armada e com direito a serem xingadas pelo assaltante. Em outros, se perderam, tomaram chuva e capotaram lindamente na calçada. Manu até que está inteira, mas a bicicleta, coitada, já perdeu freio, perdeu pedal e está toda arranhada: constantemente precisa ser levada ao conserto. Mas Manu já aprendeu a gostar dela e se apegou ao objeto. Quanto aos cadeados arrombados, estes foram guardados como forma de recordação. Quem sabe não sejam transformados em quadros e não façam parte de uma decoração um tanto quanto peculiar?

Carta de libertação

 

Desisti de minhas raízes:

escolhi ser livre

e a liberdade me prendeu

 

Que eu sopre o vento que me guia

¡Pertenço ao mundo, a mais ninguém!

 

É a minha vez de dizer quem EU sou

de quebrar minhas próprias correntes

sem aceitar novas imposições

 

Agora que me perdi, não quero salvação