Amor expresso, conto 51*

Ela, pessoa reservada e de pouco contato social, tinha suas próprias tradições: gostava de oferecer para algumas visitas, quando as recebia, café. Apenas o café, nada mais. Como não costumava comer entre as refeições, raramente tinha algum petisco ou algo a oferecer além do café. Não gostava de adoçar as coisas, então havia dias em que simplesmente não tinha açúcar ou adoçante para disponibilizar às visitas. Quando pediam algo para adoçar a bebida, ficava confusa: como podiam estragar tal sabor?  Ficava sem graça se pedissem por algo a mais que ela não tinha para ofertar naquele momento. Para ela, o café expresso era o melhor item que poderia oferecer para alguém. E ela escolhia cuidadosamente que café ofereceria para cada pessoa, buscando dialogar sempre gosto, com personalidade e intensidade. Para ela, o café, preto e intenso representava a vida em sua força e capacidade de proporcionar grandes prazeres, apesar das queimaduras na boca. Havia muito mais significado em oferecer uma xícara de café amargo, pensava, do que supunham os romantismos baratos e as tolas regras de etiqueta social.

*Amor expresso é nome do livro da autora Adriana Aneli, publicado pela editora Scenarium. O livro consiste em 50 mini-contos que tem o café como tema.

Carta de fim de primavera

 

Não me culpe por meus sentimentos,
como se eu tivesse algum controle sobre eles
Não venha à minha casa pedir a volta do que já foi:
amor não é um ciclo eterno

Pare de pensar que a dor escolhe lado,
que minhas feridas não se reabrem
a cada lágrima… sua!

Mas temos que seguir em frente,
sem nos apegar ao passado,
sabendo que o que passou foi doce e
a amargura é pouca.

Temos que seguir
guardando um ao outro,
cada qual em sua estrada…
que nos permitiu caminhar juntos!

E como caminhamos!

Entre chuva, sóis, suavidade e tropeços
Descansei em seus braços e você nos meus,
nos fortalecemos juntos
Então surgiu a bifurcação;
nossos caminhos eram diferentes

A dor da separação foi forte,
não estávamos preparados
Mas precisamos experimentar
novos climas e paisagens

Nas lembranças,
sempre será primavera
no primeiro amor