Uma carta da Depressão 

 

Por que está chorando?

Mandei que não se iludisse

avisei que ninguém iria te abraçar

 

Me escute mais uma vez

não se esqueça de que ainda sou eu

quem manda em você!

 

Você é sozinha, criança,

sempre foi

Por que pensou que isso mudaria?

Para voltar a viver em inércia

e morrer em vida?

 

Você se afundou para que te salvassem

e ninguém percebeu

Agora que tudo está escuro

a morte é uma alternativa

Se a vida não é mais sua,

permita que ela se extinga

 

Ou durma, criança

durma e sonhe

crie seu mundo

fuja de tudo

 

E não acorde,

tranque-se em seu

túmulo

Anúncios

Conto introvertido

Não gostava de se expressar publicamente, mas gostava de escrever: as palavras que se recusavam a sair pela boca, escorriam e transbordavam pelas mãos. Fazia então um texto. Lia e relia, tentando analisar a qualidade. Mas como saber se estava bom? Deveria perguntar a alguém? Pânico: PRECISAVA perguntar a alguém! Mas quem?Chegava a passar até uma hora pensando no leitor/crítico perfeito: tinha que ser conhecido seu, mas só até certo ponto. Tinha que saber sobre a situação a qual o texto se referia, mas não de forma muito aprofundada. Tinha que entender o escritor, mas nem tanto. Tinha que ser sincero e, acima de tudo, discreto.

Escolhido o responsável pela primeira leitura, viria o veredito: se reprovado, o texto iria para a reforma; se aprovado, seria passado ao próximo leitor também cautelosamente selecionado. Se novamente aprovado, passaria aos próximos leitores (que por favor lessem sem a presença física do autor!). Algumas pessoas jamais entrariam em contato com determinados escritos. O longo processo era sempre o mesmo entre a produção de um texto e outro.

Um dia decidiu revolucionar consigo mesmo: colocaria um poema recém escrito na internet para todos verem! Sem pensar duas vezes, publicou. O coração parou por um instante e o sangue gelou de imediato. Passado um tempo, chegou a gostar do resultado do que fizera, mas logo se arrependeu ao pensar nas pessoas que liam seus textos sem passar pela criteriosa seleção. Tremendo, chegou a repetir o feito mais algumas vezes até passar pela pavorosa situação de alguém lhe falar pessoalmente sobre um texto seu publicado.

Superado o trauma, resolveu revolucionar novamente: montaria um blog para abrigar suas pequenas criações literárias (poderiam assim serem chamadas?). Desta forma, numa madrugada de segunda-feira, depois de fechar os olhos e dar um breve suspiro, fez sua primeira publicação. Fez a segunda. Na terceira, voltou o pânico: o que colocar? Tudo parecia oscilar entre o pessoal ou impessoal demais. As pessoas leriam? E se lessem, gostariam? Como interpretariam? Conseguiriam distinguir os textos que partiam da vida pessoal com os provindos puramente da imaginação? Tentariam desvendar os pensamentos e sentimentos do autor? Conseguiriam? Julgariam o autor por isso?

Na dúvida, ao invés de selecionar leitores aos textos, passou a selecionar textos aos leitores. Assim saberiam apenas o que o autor quisesse que soubessem. Aqueles escritos que não tinha certeza se queria ou não que fossem lidos, ou que não sabia se estava pronto para compartilhar, foram salvos nos rascunhos do blog. Na indecisão, aguardam entre um ato de coragem ou uma falha na capacidade de comunicação

Romance urbano 

Se encontravam pontualmente às 17:30, próximo ao cruzamento. Ele, vendedor de rosas, lhe oferecia, tímido, uma flor. Ela, estudante de artes plásticas, meio sem jeito, recusava: seu dinheiro estava contado para o ônibus. Ele não se importava, queria mesmo era trocar algumas palavras com ela. Ela, querendo estender o assunto, perguntava sobre o tempo. O ônibus passava, ela ia embora e ele voltava a vender as rosas.

Ansiosos, se preparavam diariamente para o rápido encontro. Quando se viam, esboçavam um sorriso empolgado que fazia conjunto com a vermelhidão dele e a respiração ofegante dela. Apressavam o passo um em direção ao outro para o ritual que repetiam religiosamente deste que se viram pela primeira vez.

Ela se formou, ele mudou de rua. Ela nunca havia comprado uma rosa, ele nunca havia deixado de oferecer. Nunca haviam conversado sobre algo além de rosas e tempo. Ela nunca havia perdido o ônibus, ele nunca havia lhe oferecido uma carona. Se arrependiam da história que nunca começaram.

Ele abriu uma floricultura, ela uma galeria. Se encontraram novamente alguns anos mais tarde quando ela foi ver arranjos de flores para seu casamento. Ele lhe apresentou o filho pequeno que brincava no canto. Ela falou algo sobre o tempo, ele mostrou algumas rosas, ela comprou. Se tocaram pela primeira vez na hora do troco. Combinaram a entrega dos arranjos para o mês seguinte. Se despediram, ela foi embora. Como se tivessem combinado, suspiraram ao mesmo tempo. Ele, atrás do balcão. Ela, dentro do carro parado em algum lugar próximo ao cruzamento.

Carta a alguém perdido por aí

Caro,

 

O eterno foi apenas um instante

e as respostas nunca estiveram

entre xícaras de café

 

As verdades, tão vazias,

enganaram a própria ilusão

A voz se desfez

em momentos de puro silêncio

 

E você tentou

 

E por mais que tentasse,

suas punhaladas eram as mesmas

As palavras, rudes,

voltavam aos ouvidos tapados

 

Mas você tentou

 

E quando nada conseguiu,

fugiu

Percorreu mundos infinitos

tentando se desvencilhar

de um velho rosto conhecido

 

Ao final,

restou um único inimigo

Eterno, inseparável, solitário

E por mais que corresse,

deste você já não podia mais fugir

 

A você agora,

Apenas meus cumprimentos

Il commendatore

São seis da manhã. Somando, devo estar acordada há cerca de 24 horas. Num ato de não muita lucidez, pego meu cachorro e vou para a praça. A cidade cheira a café e as ruas ensaiam um pequeno movimento. Meu cachorro para em pose de alerta e late, furiosa e freneticamente para uma estátua. Será o Comendador? Na dúvida, me desculpo pela falta de cortesia e aviso que infelizmente não será possível um convite para jantar: minhas habilidades culinárias não estão à altura de um comendador. Me despeço, meio sem jeito, e volto para casa. Já são quase sete horas, me preparo para finalmente dormir. Mas não sem antes escutar um pouco de Mozart, é claro!

Carta de despedida 

 

Adeus e me desculpe,

 

Também não queria que fosse assim, tão de repente,

mas não pude aguentar

Quis partir agora, durante a madrugada, quando

o vento ainda pode brincar com meu cabelo

e o orvalho refrescar meu rosto

 

Não gastarei muito, pois

viajarei andando, para poder assim sentir

os galhos arranharem minhas roupas

e a terra sujar minha pele

 

Peço para não se preocupar,

irei para algum lugar onde

Um olhar possa carregar as palavras e

um sorriso traduzir pensamentos

Onde as dúvidas não existem

e as certezas não condenam

 

Se você quiser me visitar,

estarei onde as consciências se misturam

e os mundos se completam

Onde a igualdade é feita pelas diferenças

e podemos ser selvagens por nossa natureza

 

Não espero que você entenda,

mas quero que saiba que apenas cansei de viver pela aparência

E que jamais deixarei de sentir sua falta

nem me arrependerei de ter escrito esta carta

 

Com muito aperto,

Deixo meus abraços e beijo